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Sem Aspas | Retornemos ao belo, ao bom, à verdade - por Amanda Rocha

  "– Excelência, o senhor, que costuma tirar proveito de tudo, olhe aqui um canteiro inútil. Seria mais proveitoso plantar saladas que cultivar flores.

Mme. Magloire – respondeu o Bispo –, a senhora está muito enganada. O que é belo é tão útil como o que é simplesmente útil. E acrescentou depois de uma pausa: Talvez até mais." (Bispo Dom Bienvenu em Os miseráveis).

A passagem acima foi escrita pelo francês Victor Hugo e nos apresenta uma concepção acerca do Belo que há alguns séculos se tornou obsoleta. Percepção que abarca a beleza com valor tão importante quanto a verdade e a bondade, algo que nos conduz aos clássicos, em Aristóteles, bem como rememora os conceitos de Tomás de Aquino.








A perspectiva de beleza relacionada ao transcendental tem cedido espaço a uma carga ideológica, assim, passou-se a digerir a visão de que a arte deve ser, ou é, fundamentalmente, transgressora. Nesse aspecto, Ângelo Monteiro nos informa, em Arte ou Desastre, que “A negação de valores, mais que qualquer outra circunstância contribuiu para a pauperização cada vez mais acentuada de uma arte que, acostumada ao nivelamento, não apela para nenhuma linha de transcendência”. Gerou-se a concepção popular e, muitas vezes acadêmica, de que qualquer coisa é arte. Marcel Duchamp, vanguardista que tem sua obra máxima representada por um urinol, dizia que “a ideia de julgamento deveria desaparecer”. Logo, tudo pode ser concebido como arte, destarte, qual a importância de se produzir arte e de haver artistas?

Roger Scruton respondendo ao questionário de por que a Beleza importa? Pronuncia que “no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, gradativamente, se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era beleza, mas originalidade, atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios. Não somente a arte fez um culto à feiúra, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras, estão ficando cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas”.

Ângelo Monteiro ainda nos alerta que “Como o Mal é talvez mais diversificado que o Bem, assim como o Feio em relação à Beleza, justamente pela ausência de qualquer medida, a decadência é um tema tão inesgotável que nunca saberemos realmente o seu momento de maior auge, já que as máscaras de que dispõe não são suficientes para cobrir as exibições intermináveis dessa mediocridade que envolve todos os âmbitos e todas as instituições, não deixando lugar para qualquer realização superior do espírito”.

Não é sem sentido que as músicas, outrora compostas por arranjos e melodias extraordinárias, rejeitaram as letras recheadas de valores universais e cederam lugar a batidas escarnecidas e letras vulgares. De igual modo, e talvez ainda mais agressiva, a Literatura que ovacionava a coragem, a amizade, a fidelidade, a honra, entre outros, abdicou de sua forma grandiosa e decaiu levando consigo a nação.

H. R. Rookmaaker leciona que a crise nas artes é “a expressão de uma crise mais profunda, de natureza espiritual e que afeta todos os aspectos da sociedade, incluindo a economia, a tecnologia e moralidade”. O crítico assinala plausivelmente que “a arte pode ser definida como beleza produzida pelo homem” e, completando essa concepção, podemos recorrer a Edmund Burke que entendia “que a beleza consiste, na maioria das vezes, em alguma qualidade dos corpos que age mecanicamente sobre o espírito humano, mediante intervenção dos sentidos”. Rookmaaker ainda completa que “A beleza sempre existirá onde há verdade, amor, vida e realidade, ao passo que pecado, mentira, ódio e morte (em seu sentido mais profundo), sendo realidades negativas, são feias e levam à feiura”.

Vivemos um período de ruptura entre arte e beleza, mas como bem assinala Fabrício Tavares, essa ruptura é “ocasionada por dois motivos principais. Primeiramente, o afastamento dos padrões objetivos de Deus conforme estabelecidos na criação, o que consequentemente leva à rejeição do “moralmente belo” – καλοκαγαθία dos gregos antigos. Em segundo lugar, porque o artista é visto não mais como Rookmaaker e outros grandes nomes o viam, isto é, como criador da beleza, mas sim como ativista cultural, regido por critérios outros que se sobrepõem ou obliteram os estéticos”. Ainda parafraseando o autor não há liberdade artística quando esta é subjugada a um programa ou agenda política.

A sociedade está em declínio e urge um retorno ao belo, ao bom, à verdade. Roger Scruton sabiamente nos alerta: estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida.


Que Deus nos abençoe. A indicação de leitura de hoje é A arte não precisa de justificativa, de H. R. Rookmaaker.


Amanda Rocha é professora e escritora


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