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Sem Aspas | O poder da palavra – por Amanda Rocha

 Desde que iniciamos neste blog temos conversado, senhores leitores, sobre assuntos vários: política, sociedade, literatura. Por algumas vezes, lemos breves estórias que não nego, me afagaram o ânimo; outras vezes, em contrapartida, vos escrevi com muito pesar. Há realidades duras de serem encaradas e provocam sentimentos despidos de nobreza. Quando penso em escrever-lhes sobre alguma reflexão e inicio o ofício, descubro minha infinita restrição. Não digo tais coisas a fim de encontrar elogios, não exerço a falsa modéstia. Reconheço, simplesmente, que minha limitação lança-me à face minha pequenez, a pequenez humana. O quão miserável e dependente sou do Divino e que sem Ele de fato nada, absolutamente nada, poderei fazer.

Muitas vezes as palavras saltam em minha mente como a água fervente a borbulhar num imenso caldeirão, contudo, são quentes demais e não posso pegá-las. Mesmo quando audaciosamente ouso agarrá-las, as comparo a outros escritos, de autores diversos, logo, intuo a insignificância do que produzo.

[...] Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia
De outro qualquer. [...]


Olavo Bilac




Então por que persistir com elas? Há sentido nisso? Porque guardá-las talvez seja ainda mais grave e, quem sabe, por tanto insistir com elas, consiga aprimorá-las, aprenda a me relacionar com elas.

Usar as palavras a fim de alcançar o propósito comunicativo não é algo tão simples. É justamente esse o mistério que tornou alguns homens tão especiais: eles conseguiram traduzir em palavras o óbvio, aquilo que era tão nítido quanto à alva, o que todos percebiam, mas que poucos conseguiam expressar.

Northrop Frye já dissera: “Ninguém é capaz de manifestar liberdade de expressão a menos que saiba usar a linguagem, e este conhecimento não é uma dádiva: precisa ser aprendido e trabalhado”. Persistindo com o filósofo citado, Pedro Henrique Alves, em matéria especial para a Gazeta do Povo, expõe que para o autor canadense:


A linguagem é o único meio para o homem entender a realidade; do contrário, ele seria talvez uma espécie de mamífero mais complexo, nada além disso. A linguagem é o que faz o homem identificar formas, sons, distinguir coisas, qualificar elementos e recusar banalidades, e, talvez o mais importante: dar sentido a seus atos, identificar e relacionar os significados em suas ideias. E, num grau mais tardio, pensa Frye, conceituar e refletir sobre o mundo em si e sua participação nele.


George Orwell mostrou, mediante ficção, o poder da linguagem. Os horrores da Segunda Guerra claramente revelaram a imensidão e o impacto desse poder. As fake news confirmam que esse poder não é estanque a um momento histórico, ou ao mundo ficcional. Platão, em A República, já expunha a preocupação com as palavras. O filósofo temia o esvaziamento delas, pois, isso geraria o maior dano de todos: a impossibilidade de transmissão de conhecimento.

É grande infelicidade perceber o uso que se tem feito da palavra nas artes, na filosofia, no jornalismo, nas tecnologias, enfim o esvaziamento delas. Realidades disformes têm sido impostas às pessoas como se vivêssemos numa ficção avessa ao belo. A esquizofrenia dos discursos replicados nas mídias e redes sociais usurpou o contexto, a realidade. Restou, assim, unicamente a mentira, o asqueroso. Por consequência, limitou-se a capacidade de expressão e a linguagem volveu-se pobre e descompromissada com a verdade. Não seria tão trágico se este discurso falacioso não servisse de pilar jurídico para o Estado impor uma única maneira de pensar e agir aos cidadãos. É este novo discurso com palavras eivadas de significados desconexos com a realidade que faz alguém ser punido por não concordar com as teorias de gênero, a exemplo.

Por fim, não poderíamos encerrar sem rememorar João 1:1-4 “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ela estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens”. A Palavra, que é a Verdade, é a essência do que é bom, justo, belo e agradável. Através da Palavra o homem achega-se ao seu Criador, enche-se de nobreza e propaga coisas belas.


A indicação de leitura de hoje é A alma do mundo, de Roger Scruton. Que Deus os abençoe.


Amanda Rocha é professora e escritora

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