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Sem Aspas | O vírus não é chinês, mas a variante é brasileira – por Amanda Rocha

 Estima-se que no início do século XX a Gripe Espanhola causou a morte de 17 a 100 milhões e infectou aproximadamente 500 milhões de pessoas em todo o mundo. Seu nome resulta do fato de a Espanha ter sido um dos poucos países que, sem a restrição da Primeira Guerra Mundial, informava sobre o vírus letal que provocava medo e devastação.

A história nos revela que antes e depois da Gripe Espanhola (1918) muitas pessoas morreram decorrente de pandemias. Entre 1957 e 1958 a Gripe Asiática conduziu à morte cerca de um milhão de pessoas. Já entre 1968 e 1969 há uma estimativa de 1 a 4 milhões de mortos decorrentes da Gripe de Hong Kong. A pandemia de 1977 – 1978, conhecida como Gripe Russa (apesar de o primeiro caso ter registro na China, recebeu o nome de Russa, pois a China não era membro da Organização Mundial da Saúde (OMS) e fora justamente a União Soviética a primeira a relatar o surto), possui uma estimativa de 700 mil óbitos. A Gripe Aviária, com menor letalidade, cerca de 300 pessoas, foi a pandemia dos anos de 1997 e 2004.

Em 2009, outra variante do vírus que ocasionou a pandemia de 1918 espalhou-se pelo mundo promovendo outro momento de terror. A estimativa é que a chamada Gripe Suína matou cerca de 150 mil a 575 mil pessoas. A gripe passou a ser predominantemente chamada de H1N1, sobretudo, depois de mobilização dos grandes vendedores de cortes suínos, por, logicamente, ter abalado abruptamente as vendas desse produto.

Enquanto o mundo contava os 10 anos da última pandemia, outra se impunha. Com pouco mais de um ano, a pandemia do Sars-CoV-2 soma mais de 114 milhões de contaminados e mais de dois milhões de mortos. O primeiro caso ocorreu no final de dezembro, na cidade de Wuhan, na China e se espalhou rapidamente por todo o mundo.

Não demorou para que o vírus fosse batizado: Novo Coronavírus, Covid-19. É verdade que alguns passaram a nomeá-lo Vírus Chinês, como o caso do ex-presidente Americano, Donald Trump. Isso fora suficiente para que a guerra geopolítica entre as duas grandes potências econômicas mundiais, elegesse a linguagem como mais um campo de guerra. Diante da situação, a OMS, dirigida por Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou através de seu diretor-executivo para emergências de saúde, Mike Ryan, que “deve-se evitar vincular um vírus a um grupo étnico, porque o que é necessário é solidariedade e trabalho em conjunto”, também acresceu que “esse vírus não tem fronteiras, não leva em conta a cor da nossa pele ou quanto dinheiro temos no banco, e é importante ter cuidado com o idioma”. Para a OMS e muito ‘especialistas’ espalhados por todo o mundo, o rótulo de Vírus Chinês é claro exemplo de xenofobia e discriminação.

O Governo Chinês (militar, ditatorial e comunista) expôs contrariedade ao ter seu nome associado ao vírus mortal manifestado primariamente em seu território. Não demorou para associarem o termo a um tom pejorativo e promotor de estigmas e estereótipos, logo, de uso inconcebível . Enquanto isso, as TVs, especialmente as brasileiras, exibem, quase em tom de glória, as ferramentas usadas pelo Governo Chinês para garantir a taxa de 0 mortes há 10 meses, na cidade que foi o primeiro epicentro da pandemia, conforme os dados oficiais. Uma ditadura é marcada pela ausência de liberdades e pela falta de transparência em sua governança. Sendo o Governo Chinês uma ditadura comunista (embora carregue o nome de democracia), quais garantias o mundo possui de que os dados transmitidos são verídicos?

A China exerce ampla vigilância sobre seus cidadãos através de câmeras que, além de detectarem a temperatura, fazem reconhecimento facial. Identificam os indivíduos, guardam seus endereços e os lugares que frequentam. Ao mundo, justificam o uso dessa tecnologia para monitorar a evolução do vírus e identificação dos lugares de proliferação, contudo, essa tecnologia também foi utilizada para tolher o benefício econômico, cedido em decorrência da pandemia, dos frequentadores das poucas igrejas cristãs autorizadas a funcionar no país.




Embora recorrente, ainda é incômodo perceber como a grande mídia altera a visão sobre o mesmo fato conforme lhe convém, sob o pretexto de defender ou destruir aliados ou opositores. Há alguns meses, quando o Governo Trump anunciou a compra de uma quantidade significativa de vacinas, foi acusado de egoísmo. A mídia defendia a distribuição equitativa das doses da vacina aos países; hoje, sob a presidência de Biden, a mesma atitude é vista como assertiva e exercida com um sentimento de cuidado. Desde que Biden assumiu, pouco se transmite na TV brasileira sobre o avanço do vírus em solo norte americano. Junto à ascensão dos democratas, a fuga do vírus.

Esse mesmo antagonismo é usado quando se vislumbra as apreciações que fazem dos brasileiros que se opõem à vacinação em massa ainda nesta fase de testes, mas não tecem duras críticas ao sentimento anti vacina que tomou a França.

Ademais, toda a mídia criticou, assim como os órgãos internacionais, sob a alegação de preconceito o uso do termo Vírus Chinês, porém, acataram e utilizam sem qualquer restrição o termo variante brasileira, ou variante britânica. Direcionados ao Brasil e ao Reino Unido, os mesmos discursos de xenofobia, racismo, preconceito, etc. não precisam ser aplicados. Se estamos, para além de uma guerra biológica e geopolítica, em uma guerra semântica, já é possível conjeturar de qual lado querem fazer as pessoas se posicionarem.

A História é uma guerra de narrativas: constroem vilões e mocinhos que podem alternar os papéis conforme os interesses. Ovacionam o Lockdown, negam sua ineficácia, omitem as notas dos Conselhos Regionais de Medicina e descartam o tratamento precoce. Tratam como novidade o caos no Sistema Único de Saúde. Acusam o Governo Bolsonaro pelo avanço do vírus no país e distorcem a compreensão da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6.341, que esvaziou as ações do Governo Federal e concedeu aos Estados e Municípios o direito de tolher direitos individuais estabelecidos em cláusulas pétreas na Constituição Federal através de simples decretos.

Também cerram os olhos para o fato de os entes federativos, estados e municípios, responsáveis pela mitigação dos impactos do vírus chinês não terem realizado com eficácia ações para evitar o colapso nos hospitais. Dizem defender a educação e a liberdade religiosa, mas não aceitam que sejam tratadas como serviços essenciais, concordando facilmente com o fechamento de escolas e igrejas. A pandemia possui muitas máscaras e elas encobrem a hipocrisia e a corrupção de muitos líderes e de grande parte da mídia atual. O importante diante desse antagonismo é seguir a recomendação do apóstolo Paulo, conhecer tudo e reter o que é bom. E acima de tudo, não olvidar que apenas a Verdade liberta.


A indicação de leitura hoje é Os donos do mundo, de Cristina Martín Jiménez. Deus nos abençoe.



Amanda Rocha é professora e escritora


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