Pular para o conteúdo principal

Sem Aspas | Mulherzinha de merda - por Amanda Rocha


Ela era só mais uma mulherzinha de merda que acordava cedo todos os dias, que preparava o lanche das crianças, passava as fardas e quando dava, ainda se maquiava. Era só mais uma mulherzinha de merda que pedia a Deus que protegesse seus filhos, que lhes cobrava dedicação aos estudos e se culpava pelas dificuldades que eles sentiam. Mulherzinha de merda que ralava no emprego, engolia sapos o dia inteiro e abdicava do almoço para ter alguns minutos com a prole. A merdinha que largava perto das seis, fazia a janta e ensinava o ABC. O banho era última ação, antes tinha a roupa para estender, a máquina para encher e a ligação para retornar. Havia também a casa para varrer, os móveis para limpar, o banheiro para lavar. 

Checar a dispensa, passear no supermercado, prender o cabelo embaraçado. Cinéfila de carteirinha, saía para os parques e brincava de amarelinha. Uma mulherzinha qualquer que planejava, executava e, quando dava, se alegrava. Mulherzinha de merda, apaixonada pela vida, fã de chocolate quente, sapatos novos e a massagem que o vento fazia em sua na face enquanto corria. Uma merdinha qualquer que lia e por vezes também escrevia. Sonhava os contos de fadas, vestia-se de fantasias. Era bailarina, astronauta e para rimar, dona de alfaiataria. Gostava do rosa ao dourado, passando pelo azul-turquesa e o céu de lua cheia e todo estrelado. Suas longas madeixas, seu batom vermelho, suas antigas bonecas, seu escarpam preto, as feridas nas mãos, as marcas no peito, o grito preso, sua angústia e desespero. Queria fugir, mas isso significaria levar tudo consigo, melhor ficar, erguer a cabeça e sorrir. Afinal, puta merda, que mulher ela era.


A indicação de leitura hoje é "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa. Deus nos abençoe.




Amanda Rocha é professora e escritora

Comentários


Postagens mais visitadas deste blog

Baixe aqui o livro - Passos para o Reavivamento Pessoal

Clique aqui para baixar a versão PDF.

Artigo | Covid-19 e os rumos da educação brasileira - por Mário Disnard

Acredito que a experiência de 2020 será um marco decisivo na educação, visto que a pandemia do Covid-19 nos apresenta, mais do que nunca, a necessidade de repensar o papel social da educação para além do processo de escolarização. No Brasil medidas emergenciais foram tomadas para garantir o processo educativo, entre elas, o trabalho educacional remoto. No entanto, diante de tantos imprevistos, gestores, professores, estudantes e famílias encontraram-se num momento de muita pressão, com várias dúvidas e incertezas. Diante da atual situação, os limites impostos têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação, o que nos remete a uma série de questionamentos: há efetivamente uma preocupação com a qualidade social da aprendizagem? O que este período nos informa a respeito de nossos estudantes e de suas famílias com relação as nossas práticas como educadores?   O que faz sentido manter e o que mudar? É possível repensar o papel da escola e da sociedade na formação das novas

Por Dentro do Polo | Pernambuco volta a ser o maior produtor de Jeans do Brasil – por Jorge Xavier

O Brasil produziu 341 milhões de peças jeans em 2019. Desse total, o polo produtivo de Pernambuco sustentou 17% do volume. Com algo em torno de 60 milhões de peças no ano, o estado é o maior polo de jeans do país, segundo o iemi - Inteligência de Mercado. Ultrapassou, assim, regiões como norte do Paraná e Santa Catarina. São Paulo é o maior centro comercial, mas, não de produção.Em Pernambuco, a produção está concentrada sobretudo entre Toritama e Caruaru. O valor da produção de peças jeans está estimado em R$ 14,4 bilhões, que corresponde a 9,5% do total nacional da produção textil no ano passado, apontou Marcelo Prado, diretor do leme, que participou de webinar da Santista sobre o futuro do consumo com a covid19. Já o varejo de jeans movimentou R$ 25,3 bilhões, disse Prado. A receita corresponde a 11% do consumo nacional de vestuário, calculado pelo lemi em R$ 231,3 bilhões, com a venda de 6,3 bilhões de peças. Em sua apresentação, Prado mostrou a evolução do mercado nacio