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Sem Aspas | Pesadelo - por Amanda Rocha

Não era o lugar adequado para pedir socorro, talvez uma delegacia, mas temeu ir até lá, era negra e pobre, pouco alfabetizada. Sabe Deus como a tratariam.

- Mas o que você fez? Você o traiu? E por que ainda não o abandonou? É jovem, tem preguiça de trabalhar?





Queria mesmo evitar perguntas dessa estirpe, assim, a escola seria um refúgio. Lá era obrigatório ser gentil e educado. Procurou na secretaria alguém que estivesse disposto a ouvir suas queixas, propor uma solução e quem sabe ceder-lhe o telefone de um super-herói disposto a ajudá-la, ampará-la. Ouviram-na com atenção. Tremeram diante de cada denúncia, choraram cada palavra feroz e apavoraram-se com cada veneno epidérmico lançado sobre sua face. Seu algoz, seu príncipe encantado que se volvera numa fera capaz de cuspir cinzas e embriagar-se de ciúmes e blasfêmias. Atônitos, os que a ouviam recomendavam a denúncia, ela hesitava. As incertezas futuras amedrontavam-na mais que as certezas dolentes do presente. Seu desespero contaminou o espaço e como numa epidemia viral contagiou todos os ouvintes de tremores e temores. Quem desafiaria uma fera de poder bélico desmedido e incomensurável? Suas palavras eram mais precisas que um míssil, atingiu-na pondo-a embebecida pelo agro verberado de seu ódio. Transloucada, discursou para ouvintes atentos, atônitos e correu como uma corsa. Seu destino? Sua casa. Essa era modesta, um misto de alvenaria e madeiras, paredes descascadas e telhado rebaixado. As prateleiras desniveladas armazenavam um pouco da comida e das roupas. Na cama um colchão velho revestido por um cobertor de retalhos escuros e pelo medo e solidão. Entrou, trancou todas as portas e janelas, dirigiu-se até o fundo da casa e verificou a enferrujada grade, o acabado frízer sem tampa onde estavam Salsicha, um cachorro de pêlos escuros, e um Ganso, Geruza, que guardava seus ovos. Ambos tremiam de fome. Deitou-se, mas o barulho à porta não a deixou dormir. Ameaças adentraram a pequena residência. Fogo, fogo! Ele me queimará viva, o que farei agora? Num desespero bateu a cabeça numa das prateleiras e tombou sobre a barulhenta cama. Tornou-se pedra, não ouviu mais nada, estava desacordada. Horas depois o ressoar de um relógio, era seu despertador. Ângela abriu lentamente os olhos encharcados pelos raios de sol que adentravam pela janela através de uma fenda na cortina bege. Contemplou calmamente aquele cenário lúcido, que se revelava fulgente e de odor primaveril. Mirou a hora, alongou-se, vestiu-se deslumbrante e seguiu para sua apresentação ao novo emprego, estava certa de que a partir de agora, com a mente ocupada, aqueles pesadelos findariam.

A indicação de leitura hoje: Crônicas Escolhidas, de Lima Barreto. Deus nos abençoe!


Amanda Rocha é professora e escritora


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