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Opinião Construtiva | A desconstrução da violência natural… - por Mário Disnard

 

O verdadeiro problema para nós, não consiste mais tanto em recusar a violência quanto em interrogar-nos sobre uma luta contra a violência que sem estiolar a não resistência ao mal, possa evitar a instituição da violência a partir desta luta mesma”



Para pensarmos em uma cultura de paz, temos que proceder, primeiramente, à desconstrução dos princípios que legitimam socialmente a violência. Essa desconstrução tem como objetivo retirar da violência dois aspectos considerados essenciais para sua legitimação: presumida naturalidade e a sua também suposta vinculação inextricável com o direito e a ordem social.


Os apelos para uma cultura da paz encontrarão sempre dificuldades na ambiguidade do espírito humano, constitutivamente paradoxal, que deseja o bem continua fazendo mal. Contudo a efetivação de dispositivos operadores de paz exige que pensemos os princípios filosóficos que tornam a violência algo natural e como consequência contribuem para legitimar a inevitabilidade de culturas violentas. Só após a desconstrução desses dispositivos de verdade, que legitimam socialmente a cultura da violência, poderá se pensar em noivas verdades sobre a cultura da paz.


A efetivação de uma cultura da paz será sempre um horizonte apelativo para a conduta humana e um limiar prescritivo para as sociedades. A paz, como todo ideal humano, sempre será algo por construir, embora nunca poderemos deixar de implementá-la. Como todos os valores e práticas humanos, a paz prescreve um modo ideal de vida., embora nossa condição histórica nunca permitirá que se realize na plenitude almejada.


Para finalizar, a própria racionalidade do capitalismo se legitima pelo discurso de que a natureza humana vive num estado de “guerra natural” em que o outro é sempre teu concorrente ou teu cliente, do outro tens que aprender a aproveitar-te ou vencê-lo. O outro é teu inimigo natural, com o qual vais concorrer, mais cedo ou mais tarde, por um lugar social e só o mais forte vencerá. A consequência natural destas premissas afirma que os excluídos são o resultado natural de sua incompetência. A violência se legitima, assim, como o elo invisível que articula a lógica das relações do mercado e dos Estados. Enquanto persistir o poder destas verdades, e seus discursos sejam hegemônicos, todas as tentativas de efetivar uma cultura da paz só serão adendos postiços de boas intenções no marco de uma cultura que cultura a violência como valor natural dos mais fortes.


Mário Disnard é professor, com graduação em História e Gestão em Recursos Humanos. Possui pós-graduação em Gestão do Capital Intelectual e Coordenação Pedagógica. Foi Articulador da EJA da Prefeitura Municipal de Caruaru. Tem experiência na área de Administração. Foi coordenador do Fórum Estadual de Educação de Jovens e Adultos biênio 2014/2016, Foi vice-presidente dos Conselhos Municipais de Assistência Social e Direitos da Criança e do Adolescente de Caruaru. Participou da Construção do Plano Municipal de Educação de Caruaru. Pesquisador em EJA com publicações Nacionais e Internacionais. Em 2020 lançará o livro com a mesma temática do trabalho apresentado em Portugal pela editora Appris.


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