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“Vamos acompanhar se, de fato, a recarga dos cartões será retomada”, diz presidente do COMAE, Neide Mota

A presidente do Conselho Municipal de Alimentação Escolar (COMAE), Neide Mota, conversou com o Contexto Blog sobre a recarga dos cartões alimentação no município de Caruaru. Até agora, só houve um crédito, no mês de setembro, de acordo com o órgão. Na entrevista, a presidente lamentou a forma que o assunto tem sido tratado e ratificou o compromisso do Conselho de fiscalizar as ações do poder público. Confira:





Dezembro chegou, e, aparentemente, muitas famílias de Caruaru que esperavam uma ceia de Natal melhor, terão este sonho, de certa forma, frustrado, por causa da informação de cancelamento das recargas dos cartões alimentação no município. Como a senhora avalia esta situação?

Eu diria que não é só um Natal mais singelo, mas o ano de 2020 foi bem singelo para essas famílias, pois o poder público deixou muito a desejar no que diz respeito à entrega de alimentação para esses estudantes. Ontem (1º), tivemos a informação da suspensão das recargas, pois os cartões foram entregues no dia 28 de setembro – o que foi um problema, pois muitos não estavam com a carga imediatamente disponível, alguns tiveram de passar semanas esperando. Agora, recebemos a informação da suspensão das recargas, dois meses após a primeira recarga.

O que incomoda não é só a suspensão da recarga, mas a falta de informações. Suspenso por quê? Até quando? Quais as razões? Como essas famílias serão abastecidas? Esses são questionamentos que o Conselho vem fazendo à Secretaria de Educação, porém as respostas não chegam. Eu digo que a Secretaria está completamente silente com relação à merenda escolar, e não é de hoje. O diálogo é muito pouco. As informações não chegam, e muitas mães estão deixando seus filhos dormir e acordar sem alimentos.



A rede municipal é formada por mais de 40 mil estudantes. Quais os impactos desta ausência do poder público no que diz respeito à merenda, para o processo ensino-aprendizagem e o desenvolvimento das crianças de Caruaru?

Além de trazer grandes prejuízos ao aprendizado – pois sabemos que a alimentação compromete diretamente o raciocínio, a concentração –, eu digo que ainda traz danos maiores neste momento de pandemia, no qual as pessoas com imunidade mais baixa correm mais riscos de adoecer. A gente sabe que a nutrição que essas crianças deveriam ter está deixando a desejar, pois o município não está cumprindo sua parte. Em nove meses de pandemia, só foram entregues dois kits alimentares – o primeiro com aquela repercussão supernegativa do composto alimentar e da sardinha – e agora, uma recarga. A gente vê que é um prejuízo à educação e à saúde dessas crianças. A alimentação é um direito básico, e o município vem negando escancaradamente. O Conselho tem feito denúncias, acionado os órgãos de controle, mas as respostas não chegam na velocidade que as nossas crianças merecem.



O Conselho tomará alguma medida concernente à suspensão das recargas?

Olha, a gente não para. O Conselho vem cumprindo seu papel. Dia 12 de novembro, a gente pediu esclarecimento à Secretaria de Educação sobre essas recargas, mas não obtivemos resposta. Ontem (1º), tivemos conhecimento através da imprensa que houve uma reunião entre o Ministério Público, a Prefeitura e o Conselho Tutelar – até estranhei porque o Conselho de Alimentação não foi convidado, já que a reunião foi sobre alimentação. Na sexta-feira passada (27/11), nós visitamos escolas onde foram entregues carnes; e algumas mães reclamaram da qualidade do produto. Essas entregas são pontuais, não entram na contagem dos kits, pois não contemplam toda a rede.

O final de ano está chegando, é momento de realizarmos prestação de contas, entregarmos relatórios para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Vamos continuar nosso trabalho, denunciando e chamando a atenção dos órgãos responsáveis.


Qual sugestão você daria aos pais e mães de alunos que sofrem com esta situação?

Eu digo um ditado bem antigo: é engrossar o caldo. Venham fazer coro junto ao Conselho. Muitos desses alunos também, já têm uma idade que conseguem se colocar. Tem de ter mais gente reivindicando os direitos.

Eu gostaria de destacar que hoje (02) pela manhã, através de grupos de WhatsApp, o Conselho recebeu uma informação que amanhã (03) o município vai recarregar os cartões. Não temos a informação oficial, apenas de ‘ouvi dizer’. Vamos acompanhar se, de fato, a recarga dos cartões será retomada ou não. O trabalho do Conselho é fiscalizar, acompanhar e, caso haja irregularidades, denunciar.

A gente não pode esquecer que nenhum município deixou de receber os repasses federais. Nada justifica a Prefeitura não ter entregue alimentos nem cartões. Não foi falta de recursos, mas de organização e planejamento. Quando houve entrega de merenda, já foi às vésperas da data de vencimento. E, mesmo quando os alimentos estavam no prazo de validade, nós vimos que o armazenamento não era realizado da melhor forma possível. O que a gente identifica é que falta organização, planejamento e sensibilidade para com o outro, para aplicar os recursos de forma correta e evitar alguns problemas. Ter chamado o Conselho para a discussão poderia ter diminuído metade dos problemas que estamos vivendo.

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