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Pastores políticos e Abraham Kuyper - por Francisco L. Schalkwijk

 Foi exatamente há cem anos que faleceu o grande estadista holandês Abraham Kuyper (1837-1920). Recentemente uma palestra famosa dele foi publicada também no Brasil, O Problema da Pobreza: A questão social e a religião cristã (Thomas Nelson, 2020). E posso acrescentar com gratidão que foi a nossa filha Minka que fez a tradução do holandês arcaico. A palestra foi proferida no Primeiro Congresso Social Cristão em Amsterdam (1891).

 

O preletor, Kuyper, tinha sido pastor na mesma cidade e era pastor ainda no seu coração. Vendo as multidões de trabalhadores empobrecidos, ele tinha entrado na política, mas a lei na Holanda proibia combinar os dois ofícios, político e pastor. Nesta altura da sua vida com 54 anos de idade, Kuyper, pai de oito filhos, já tinha fundado um diário, pois era um pastor-jornalista como o rev. Elben César. E como politico, Kuyper já tinha sido membro do Congresso holandês, tinha organizado um partido politico cristão, fundado uma universidade reformada e passado pelo vexame de um conflito eclesiástico que levaria à organização das Igrejas Reformadas na Holanda.1 Apesar dos seus problemas físicos, ele continuava lutando para concretizar o que ele viu como a tarefa cristã por excelência. E muitos se lembram daquela frase característica que resumia a cosmovisão desse incansável servo do Senhor: “Não há nenhum centímetro quadrado sobre o qual o Cristo não diz: É Meu!”. E é isso que Kuyper queria concretizar na prática da vida: não somente ortodoxia, mas também ortopraxia, em todas as áreas da vida. Por isso também seu esforço político de realizar isto na sociedade. 
 
A situação econômica e social na Holanda era de grandes diferenças sociais e econômicas. E as tensões na sociedade aumentavam, os liberais lutavam para não perder seus privilégios, o marxismo se espalhava e o papa Leão XIII tinha publicado sua encíclica Rerum Novarum. Foi nesse Congresso Social que Kuyper conclamou seus correligionários a se dedicar mais a essa tarefa árdua e urgente de fortalecer a população mais sofrida da Holanda. Dois anos depois do congresso, ele serviria por quatro anos como ministro-presidente do seu país. Mas o tempo estava se esgotando para ele. Um ano antes da sua morte ele terminou seu trabalho como redator-chefe do seu diário querido e dois meses antes de ser promovido para glória encerrou sua vida como político. 
 
Escrevo isto pensando na próxima eleição. Como esse homem “de dez cabeças e cem braços” dedicou tudo para a glória de Deus! E ficou fiel até o fim. Cristão reformado convencido, de coração pastoral, com uma visão de estadista. Caro irmão colega pastor que se sente vocacionado para o campo político, será que seria melhor abdicar oficialmente do seu ofício eclesiástico sem perder aquela visão das multidões sofredoras que comoveu seu coração para entrar na política? Ou será que entrou somente para ganhar mais glória e uma oportunidade de angariar fundos para si mesmo? Oh, como o nome do nosso Senhor Jesus Cristo tem sido blasfemado por causa de políticos que se dizem evangélicos... pior até, pastores! Mas sendo fiéis, como podem ser uma bênção!

Nota
1. O diário De Standaard (O Estandarte, 1872); membro do Parlamento (1874-’77); o partido ARP, Anti-Revolutionaire Partij (Partido Anti-Revolucionário, 1879); a VU, Vrije Universiteit (Universidade Livre, 1880); a denominação GKN (Gereformeerde Kerken in Nederland, Igrejas Reformadas nos Países Baixos, 1892). 

Fonte: Ultimato

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