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Opinião Construtiva | Fundamental é chegar ao essencial - por Mário Disnard

Contar com mecanismos de reconhecimento é sinal de inteligência estratégica



Porque eu preciso morar em grandes cidades, viver desesperado dentro de um carro para lá e para cá, restringir imensamente meu tempo de convivência com as pessoas que eu gosto, reduzir o meu ócio criativo para ficar num lugar onde vão me oferecer apenas e tão somente dinheiro?” Essa é uma dúvida que provavelmente atravessou muitas pessoas no trajeto de ida ou de vo9lta do trabalho.

Para alguns, a resposta a esse questionamento poderia vir de pronto: “Porque sem dinheiro não se vive”. Sim, sem dinheiro não se vive, mas só com dinheiro não se vive. Há uma mudança em curso no mundo do trabalho. As pessoas estão começando a fazer uma distinção necessária entre o que é essencial e o que é fundamental.

Essencial é tudo aquilo que você não pode deixar de ter felicidade, amorosidade, lealdade, amizade, sexualidade, religiosidade. Fundamental é tudo aquilo que o ajuda a chegar ao essencial. Fundamental é o que lhe permite conquistar algo. Por exemplo, trabalho não é essencial, é fundamental. Você não trabalha porque o trabalho lhe permite atingir a amizade, a felicidade, a solidariedade. Dinheiro não é essencial, é fundamental. Sem ele, você passa dificuldade, mas ele, em si, não é essencial. No mundo da empresa, salário não é essencial, é fundamental. O que eu quero no meu trabalho é ter minha obra reconhecida, me sentir importante no conjunto daquela obra. Essa visão de conjunto da obra vem levando muitas pessoas a questionar o que, de fato, estão fazendo ali.

Isso não é exclusivo do mundo do trabalho, mas vale para a vida em geral. Nós estamos substituindo paulatinamente a preocupação como os “comos” por uma grande demanda em relação aos “porquês”. O nosso modo de i=vida no Ocidente está em crise e algumas questões relevantes vêm a tona: a compreensão sobre nossa importância, o nosso lugar na vida, o que vale e o que não vale, qual é o próprio sentido da existência. Afinal de contas, a ciência nos prometera há cem anos que, quanto mais tecnologia, mais tempo livre haveria para a família, para o lazer, para a amorosidade.

Ora, durante os últimos cinquenta anos se trabalhou em busca de um lugar no mundo fundamental: a propriedade, o consumo. Isso não satisfez a nossa necessidade de reconhecimento, de valorização. Hoje temos um fosso entre o essencial e o fundamental, que leva as pessoas a ficarem absolutamente incomodadas: “Por que eu estou fazendo isso?” E a nossa lista de dos “porquês” foi sendo substituída pela lista dos “apesar de”: “Apesar do salário...”, “Apesar das pessoas...”, “Apesar desse ambiente, eu faço”. É muito diferente de se ter razões para fazer. Quando há a razão de um lado, o senão de outro, e a balança a pesar para o senão, indagamos: “Qual a qualidade da minha vida?”.

É bem provável que muitos profissionais, atarraxados pela pressão dom dia a dia, tenham elaborado o seguinte raciocínio: “Eu sou mortal para que eu vou continuar nesse modo de vida? Para que vou atuar numa empresa se a única coisa que ela me oferece é um salário e um pouco de cosmética?” Eu quero uma empresa que me ofereça reconhecimento pelo que faço, que me coloque como participante de uma obra coletiva, que me ofereça um futuro, em vez de simplesmente demandar o esgotamento do meu presente”.

Há um nível de insatisfação que somente as empresas com maior inteligência estratégica serão capazes de lidar, que são os mecanismos de reconhecimento. “Reconhecer” significa conhecer a si mesmo. Eu preciso me ver naquilo que faço. Do contrário, eu não me realizo. Se eu não me realizo usando a palavra em duplo sentido, não me torno real ou, se eu usar o termo em inglês, to realize, não me percebo. E se não me percebo no que faço, eu me sinto infeliz.

No meu modo de ver, o mundo ocidental capitalista produtivo material altamente eficaz caiu numa armadilha: especializou-se nos “comos” e deixou de lado os “porquês”. E aí temos um adensamento de insatisfação, do incômodo e, especialmente, do desespero.

Essa é uma questão que os líderes não podem perder de vista. Mostrar para as pessoas qual é o resultado da obra e identificar essa obra como magnífica. Se assim não fosse, não haveria quem tocasse címbalo em orquestra. O tocador de címbalos precisa ter clareza de que não foi lá bater vo prato três vezes, mas, sim, de que estava compondo uma obra coletiva.

Finalizando, o Ocidente acabou escorregando nesse canto e colocou as pessoas como insignificantes tocadoras de címbalos, em vez de executoras de uma grande obra, na qual um toca címbalos, o outro, violino e, o outro, fagote. E va nossa sociedade tem muito mais tocador de címbalos do que spalla de orquestra. Eu, tocador de címbalos, quero me entender como membro respeitável de uma orquestra isso é essencial...


Mário Disnard é professor, com graduação em História e Gestão em Recursos Humanos. Possui pós-graduação em Gestão do Capital Intelectual e Coordenação Pedagógica. Foi Articulador da EJA da Prefeitura Municipal de Caruaru. Tem experiência na área de Administração. Foi coordenador do Fórum Estadual de Educação de Jovens e Adultos biênio 2014/2016, Foi vice-presidente dos Conselhos Municipais de Assistência Social e Direitos da Criança e do Adolescente de Caruaru. Participou da Construção do Plano Municipal de Educação de Caruaru. Pesquisador em EJA com publicações Nacionais e Internacionais. Em 2020 lançará o livro com a mesma temática do trabalho apresentado em Portugal pela editora Appris.







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