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Meu nome é Anne, com um “e” no final, por favor - por Gladir Cabral

 [Atualização feita em 06/10/20 às 12:36]


*Versão ampliada de artigo publicado originalmente na edição 385 da revista Ultimato.

O público brasileiro foi surpreendido por uma série de televisão que traz as aventuras de uma menina simpática, brilhante e muito esperta chamada Anne Shirley. “Anne com e, por favor”, como ela mesma insiste em ser chamada. A personagem encantadora mistura um grande senso de otimismo, superação das dificuldades e desafios da vida, ingenuidade, honestidade total e sinceridade inegociável.
 
A personagem parece ao mesmo tempo refletir e contrastar a vida de sua autora, Lucy Maud Montgomery (1874-1942), que também foi órfã, criada pelos avós, era introspectiva, refugiando-se no mundo na leitura e na escrita, e que acabou se casando com o pastor presbiteriano Ewen Macdonald, que detestava literatura e vivia enredado a uma crise crônica depressão que foi se agravando ao longo da vida. Mesmo assim, a obra foi um sucesso e teve num total de nove volumes, o último publicado em 2009, bem depois da morte da sua autora.
 
Entre a série de TV e o romance original, publicado em 1908, há importantes diferenças, como a inserção das temáticas identitárias e raciais, cenas e personagens que não aparecem na obra originais e que dizem muito mais sobre nosso tempo do que sobre o da obra original. Contudo, há um tema avançado para a sua época e presente no romance de Montgomery: o feminismo.
 
Entre as pérolas que o romance de Lucy Montgomery traz, podemos destacar a importância da amizade na vida das pessoas, o lugar da imaginação como recurso de aprendizado e crescimento pessoal, o exercício da leitura como alimento para a mente e o coração, o lugar da família como rede de afetos tecida no cotidiano e não necessariamente por laços sanguíneos, a espiritualidade arejada, honesta, integral e a crítica à religiosidade convencional e repressora. Finalmente, a autonomia da mulher na sociedade, a necessidade de seu reconhecimento.
 
Ao sair do orfanato em que vivia uma vida solitária e oprimida, Anne encontra na figura da menina Diana, sua “alma gêmea”, sua grande amiga. Em meio a juramentos românticos e promessas de amizade eterna, elas se tornam parceiras de leituras, caminhadas, aventuras, aprendizado, enfim, da vida. Anne descobre em Diana a melhor revelação do que definiria Eugene Peterson: "E então alguém entra em nossa vida, alguém que não está procurando um outro para usar, é paciente o bastante para descobrir o que está de fato acontecendo conosco, é seguro o bastante para não explorar nossas fraquezas ou atacar nossas fortalezas, reconhece nossa vida interior e entende a dificuldade de viver nossas convicções, confirma o que há de mais profundo em nós. Um amigo".
 
Uma das primeiras características de Anne é sua fascinação pelo uso irrestrito da imaginação, coisa que ela aprendeu com sua mãe, que a ensinou a ler e a gostar dos livros, mas que também desenvolveu no orfanato, onde teve de se defender do ambiente hostil, do tédio e da solidão. Por isso, por todo o percurso da narrativa ela mede os lugares por onde passa segundo o critério de oferecer ou não mais espaço para a imaginação. “Sabe, eram boas... as pessoas do orfanato. Mas há tão pouco espaço para a imaginação num orfanato... somente nos outros órfãos. Era muito interessante imaginar coisas a respeito deles: imaginar que talvez a menina a meu lado fosse, na verdade, a filha de um conde distinto, arrebatada dos pais na infância pela ama malvada que morreu antes de se confessar. Eu costumava ficar na cama à noite, acordada, imaginando coisas assim, porque durante o dia não me sobrava tempo. Creio que é por isso que sou tão magra... E sou pavorosamente magra, não acha? Sou pele e osso. Adoro me imaginar roliça e atraente, com covinhas nos cotovelos”. [a imaginação, para Anne, não era uma fuga da realidade, como temia Marilla, mas uma forma de lidar de modo inteligente e criativo com a própria realidade em sua beleza e em suas ameaças]
 
Os livros acabaram se tornando grandes amigos da caminhada de Anne, sobretudo os poetas e romancistas do período romântico. Ela é inundada e guiada por um contato constante e decisivo com a beleza, a beleza da natureza, das flores, das árvores, dos riachos, do mar, mas principalmente a beleza das palavras. Anne fala muito, desde o começo até o fim da história. E fala pelo prazer de ver brotar as palavras de sua boca, do som que elas produzem, do efeito encantatório nas pessoas e nela mesma, embora algumas vezes traga certa irritação a Marilla, sua mãe adotiva. A torrente de falas de Anne contrasta com o silêncio às vezes constrangido e às vezes divertido de Matthew, por exemplo.
 
O livro também oferece uma reflexão interessante sobre espiritualidade e prática religiosa. Logo que decide adotar a menina, Marilla toma para si a atarefa de educá-la religiosamente, surpresa pelo fato de a órfã não ter aprendido a orar – surpresa, não, na verdade Marilla vicou “horrorizada”. Anne mostra-se disposta a aprender, mas expressa francamente sua noção de que o lugar da oração é o campo aberto da pessoa junto à natureza. Ela revela saber o catecismo de cor: “Deus um espírito infinito, eterno e imutável em Sua existência, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade...” Mas a questão não é essa. Do catecismo, Anne gostava mais de certas palavras ressonantes, como “infinito, eterno, imitável” porque soavam mais poéticas. Sempre a dimensão da beleza. E confessa: “Se quisesse de fato orar, eis o que eu faria: iria até um campo muito, muito grande, sozinha, ou então entraria numa floresta muito, muito profunda, e olharia para o céu... bem, bem, bem alto... para aquele céu tão adorável e azul que parece não ter fim. E então eu simplesmente sentiria uma prece. Bem, estou pronta. O que devo dizer?”. Percebe-se claramente duas experiências diferentes de espiritualidade, uma formal, tradicional, catequética, outra espontânea, próxima ao mundo natural e encharcada de beleza. Marilla também percebe isso e acaba concordando: “Você já é grande o suficiente para orar por si mesmo, Anne. Apenas dê graças a Deus por suas bênçãos e peça humildemente pelas coisas que deseja”.
 
Logo a seguir, Anne foi para sala, onde passou a contemplar um quadro na parede: Jesus recebendo e abençoando as criancinhas. Ela se identifica com uma das crianças do quadro, a mais afastada, a mais tristinha, “Imagino que nunca tenha tido pai nem mãe. Mas ela também queria ser abençoada, por isso esgueirou-se timidamente, um pouco longe da multidão, torcendo para que ninguém a visse... exceto Ele. Tenho certeza de que sei exatamente como ela se sentiu” (p. 52). No entanto, ela não entende porque o artista tinha de pintar o rosto do Cristo tão melancólico, tão entristecido. “ Todos os quadros d’Ele são assim, já reparou? Mas não acredito que Ele parecesse realmente tão triste, pois, se fosse assim, as crianças teriam medo Dele”.

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Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). É autor, em parceria com João Leonel, do e-book O Menino e o Reino: meditações diárias para o Natal. Acompanhe o seu blog pessoal.

Fonte: Ultimato

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