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Artigo | Nordeste, uma nação e os seus valores - por José Urbano

Fechando o primeiro semestre do ano, entramos no processo de execução do ciclo junino.  E discorrer sobre esse período, é mergulhar no que temos de melhor na grandiosa nação nordestina.  União de nove estados, abrangendo litoral, agreste e sertão, somos uma região geográfica convivendo com cruéis períodos de secas, mas também com um ecossistema próprio, na beleza rudimentar da caatinga e no encanto das águas quilométricas do belo rio São Francisco, que nasce mineiro-sulista e tem a sua foz na alagoana nordestina cidade de Penedo.  




Descrever o mês de junho é altamente desafiador, quando ele nos abre um panorama cultural que o nordeste tem, o Brasil conhece e o mundo reverencia. Afinal de contas, esse povo festeiro e valente, é o dono das terras onde nasceu o próprio país, em 1500, a partir da aventura marítima dos portugueses, em busca do “novo mundo”.  Foi do encontro com os Cariris, nação indígena ainda presente em partes do território, que desenhamos a identidade de brasilidade.  

A exaltação nordestina nos deu nomes do quilate dos religiosos Antonio Conselheiro, Padres Ibiapina e Cícero Romão, este último misto de sacerdote e político, personagens da grandeza musical de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Alceu Valença e Raul Seixas, Elba Ramalho e Marinês, Jorge de  Altinho e Fagner, Belchior e Trio Nordestino, entre tantos outros.  A literatura de Castro Alves e Jorge Amado, José Condé e Nelson Barbalho, o humor de Ludugero e Otrope, Chico Anysio e Renato Aragão.  

É do nordeste, o paraibano Assis Chateaubriand, o mega empresário das comunicações brasileiras, que nos trouxe o primeiro canal de TV, em 1950, e fundou o “Diários Associados”.  É sergipano João Carlos Paes Mendonca, gigante do comércio varejista nacional.  A poesia cearense e matuta de Patativa do Assaré, em contraste com a guerrilha rural do pernambucano  Virgulino Lampião e sua baiana Maria Bonita. Quem por aqui aportou, se apaixonou de imediato, que o diga Maurício de Nassau, o conde de origem alemã e administrador apaixonado por nossa gente.  Nas lutas sociais, cruzamos os atos heroicos de Frei Caneca e seu sonho republicano, e a luta por liberdade a partir de Zumbi dos Palmares.  As mãos iluminadas do mestre Vitalino, e a voz libertadora de Joaquim Nabuco, a missão de paz de Dom Hélder, e alegria televisiva de Abelardo Barbosa, o saudoso Chacrinha, ícone da TV brasileira. A trajetória política de Miguel Arraes, a ruptura institucional do marechal Deodoro da Fonseca, a grandeza cordelística de Leandro Gomes de Barros, fonte inspiradora  da magnífica obra literária e  teatral de Ariano Suassuna.  E a veia criadora de Chico Science, pai do manguebeat, inserido no panorama musical do nível de Maria Betânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, e o pai da bossa nova, João Gilberto.  Na educação, temos Paulo Freire, o maior filósofo da educação brasileira, o folclorista potiguar Luiz da Câmara Cascudo, o samba de Bezerra da Silva e Alcione...é muita gente boa, filhos e filhas dessa encantadora região do Brasil. 

Problemas sociais? Temos muitos, é verdade, mas são menores do que a capacidade de nos tornarmos um povo batalhador, criativo, empreendedor entre a fábrica e a feira, a roça e o shopping, a charrete e o avião, a lamparina e o led.  O que dizer do nosso tão original dialeto?  As vaquejadas que remontam lutas medievais na Europa, e os jangadeiros na sua luta incessante na grandeza do Oceano Atlântico. A cana de açúcar e a produção do ouro branco, adoçando as mesas mundo a fora, junto com o cacau baiano e seus cafezais.  Esse é um pequeno ensaio do nordeste, que celebra a sua religiosidade e tradições culturais no ciclo junino, no colorido da decoração, no calor da fogueira, nos movimentos de suas danças, na beleza de sua poesia, e na musicalidade sanfonada por Sivuca e Dominguinhos, moradores da eternidade.  A emoção nos une, famosos ou anônimos, formando uma só voz: Olha Pro Céu Meu Amor, é São João, é Nordeste.  Abram as porteiras do coração, deixa a cultura passar.  Viva a nossa gente, viva o povo nordestino.

José Urbano é professor


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