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Artigo | Covid-19 e os rumos da educação brasileira - por Mário Disnard

Acredito que a experiência de 2020 será um marco decisivo na educação, visto que a pandemia do Covid-19 nos apresenta, mais do que nunca, a necessidade de repensar o papel social da educação para além do processo de escolarização. No Brasil medidas emergenciais foram tomadas para garantir o processo educativo, entre elas, o trabalho educacional remoto. No entanto, diante de tantos imprevistos, gestores, professores, estudantes e famílias encontraram-se num momento de muita pressão, com várias dúvidas e incertezas.

Diante da atual situação, os limites impostos têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação, o que nos remete a uma série de questionamentos: há efetivamente uma preocupação com a qualidade social da aprendizagem? O que este período nos informa a respeito de nossos estudantes e de suas famílias com relação as nossas práticas como educadores?  O que faz sentido manter e o que mudar? É possível repensar o papel da escola e da sociedade na formação das novas gerações?  Podemos dizer que uma consequência positiva desta quarentena será um maior envolvimento das famílias na vida escolar dos estudantes?



A Constituição Federal prevê condições de igualdade no acesso à oferta educacional, e é fundamental compreendermos as questões estruturais que afetam esse direito. É notório que as experiências, sejam boas ou ruins, proporcionam-nos aprendizados, e essa pandemia enfatizou fragilidades voltadas para condições diversas das escolas das regiões brasileiras, entre elas, as voltadas  para o acesso e uso adequado da tecnologia, a valorização dos profissionais da educação, a formação continuada desses profissionais e a valorização do espaço escolar.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ressalta a importância da valorização do contexto do estudante para dar sentido ao que se aprende, e destaca o protagonismo do estudante em sua aprendizagem e na construção de seu projeto de vida.  Tendo em vista que o currículo apresenta orientações que vão muito além de um conjunto de conteúdos, destacam-se as competências (os conhecimentos, habilidades e atitudes que os estudantes desenvolvem), asseguradas quando os saberes dos estudantes são levados em consideração, quando o conhecimento adquirido contribui para o reconhecimento, o respeito e a valorização do outro, quando o professor estimula a troca de informações e ideias, mantém o foco em informações e conteúdo importantes, promove associações entre informações novas e as já absorvidas, relaciona conteúdo de diferentes áreas do conhecimento, fornece informação quando os estudantes apresentam dificuldades de expor suas ideias e quando há oportunidade para aprofundar a discussão.

Podemos dizer que a escola é um espaço de criação de consenso, de diálogos, de convivências, e que educar é também propagar o respeito mútuo, o respeito à diversidade, com base na convivência e na integração do cotidiano escolar.  Portanto, garantir o exercício do diálogo é preparar os estudantes para tomarem decisões e participarem ativamente dos espaços em que estiverem inseridos, seja na comunidade, no trabalho, na escola. Além disso, os estudantes precisam aprender a escutar, argumentar, respeitar a diversidade e a divergência, adotar valores e posicionar-se no mundo por meio do que aprendem em todos os espaços que frequentam. Acredito que não temos mais a prática e talvez o tempo necessário para buscar nossa história. Hoje as pessoas não demonstram ter paciência e disposição para escutar o próximo, saber sobre o outro e muito menos para contar e falar sobre si.  Percebi que alguns estudantes sentiam-se incapazes de enfrentar os desafios que o mundo lhes impõe e alguns grupos de colegas e até suas famílias reforçam esse sentimento. Diante disso, desistem antes mesmo de começar algo, pois julgam que não vão dar conta. Resgatar a autoestima desses jovens e fazer com que eles acreditassem na capacidade de aprender, de enfrentar os desafios, de se esforçar e se dispor para a aprendizagem, foi uma experiência gratificante.

É importante salientar que o resgate e a estruturação da história de vida de cada estudante não foi um processo simples. Senti o quanto as famílias se esforçaram para contribuir com o projeto e como puderam partilhar esse momento com os jovens. Isso determinou que contar a história de vida e as memórias da comunidade pudesse se converter em um momento importante, bastando lembrar o respeito com que os colegas tratavam quem estava contando e dividindo sua história. Sentimos o quanto a participação dos familiares foi essencial para o aprendizado e envolvimento dos estudantes.

Diante do exposto, não podemos esquecer  que, por mais precárias que estejam algumas de nossas escolas, ainda são elas e seus profissionais que acolhem, identificam problemas pelos quais os estudantes passam fora delas, esforçam-se para resolver e fazê-los acreditar que são capazes de enfrentar os desafios e se reinventarem.Tendo em vista que a educação é um processo presencial e que é um direito, podemos dizer que acontece melhor quando há vínculo. Nesse sentido, o pertencimento a determinado grupo (a escola, a comunidade, o time), a aceitação pelos demais, o sentir-se valorizado e o compartilhar realizações são fatores favoráveis tanto para a construção da autoestima quanto para a adoção dos valores desse grupo.

Logo, se desejamos a autonomia dos estudantes, é essencial que eles aprendam a refletir as decisões que precisam tomar no dia a dia:  aprender a pensar sobre os valores que estão em jogo, sobre as causas e as consequências de diferentes decisões, sobre as intervenções necessárias para fazer valer os princípios de justiça e solidariedade, considerando a perspectiva do bem comum. Se queremos que eles aprendam a respeitar ideias diferentes das suas, temos que ensiná-los a dialogar. Assim, é possível que essa capacidade e atitude de refletir e decidir com base em princípios se desenvolvam e se tornem cada vez mais potentes.



Mário Disnard é professor, com graduação em História e Gestão em Recursos Humanos. Possui pós-graduação em Gestão do Capital Intelectual e Coordenação Pedagógica. Foi Articulador da EJA da Prefeitura Municipal de Caruaru. Tem experiência na área de Administração. Foi coordenador do Fórum Estadual de Educação de Jovens e Adultos biênio 2014/2016, Foi vice-presidente dos Conselhos Municipais de Assistência Social e Direitos da Criança e do Adolescente de Caruaru. Participou da Construção do Plano Municipal de Educação de Caruaru. Pesquisador em EJA com publicações Nacionais e Internacionais. Em 2020 lançará o livro com a mesma temática do trabalho apresentado em Portugal pela editora Appris.

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