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Ajoelhados diante do inimigo – por Fábio Gonçalves·



— Senador Luís Carlos Prestes, se houvesse uma guerra entre Brasil e União Soviética, o sr. lutaria por qual lado?
Respondeu o senador, sem titubear:
— Pela União Soviética.
 
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Resultado de imagem para partido comunista chines


Conta-se que o estopim para a guerra entre gregos e persas se deu quando um embaixador do país asiático, tendo se dirigido malcriada e desdenhosamente ao rei de Esparta, o bravo guerreiro Leônidas, em solo lacônico, foi imediatamente assassinado.

A Grécia, naqueles tempos, era nada mais que um conjunto de cidades-estados, cada qual gozando de total independência política perante as demais. Não havia uma organização que juntasse as pólis helênicas em torno de um projeto de poder nacional, não havia nem sombra de um exército profissional unificado. Os gregos eram um povo diminuto, uns camponeses e pescadores espremidos entre as montanhas pedregosas do Balcãs ou dividido pelas centenas de ilhotas do Egeu.   
Do outro lado, havia o maior império da época. A Pérsia de Dario, Ciro e Xerxes apinhava em torno da suntuosa Pasárgada gente de todas as raças, desde a africana Líbia até as bordas Rio Indo. Era um povo pujante, rico, de cidadãos inumeráveis. Na guerra, eram devastadores. Seus governantes diziam-se semideuses, senhores das quatro direções do mundo.

*****

Na semana que passou, o deputado mais votado do Brasil, filho do presidente da República, compartilhou um texto em suas redes sociais no qual se atribuía aos governantes da China a culpa por toda a crise mundial ocasionada pelo vírus de Wuhan.

O texto argumentava que o Partido Comunista Chinês teria omitido ou deturpado dados importantes sobre a nova peste, informações que poderiam ter evitado, lá no início, a pandemia. Segundo o autor, queria-se com isso, como nos tempos da Chernobyl da União Soviética, evitar um desgaste internacional, deixar limpa e inocente a imagem da ditadura de Pequim perante a opinião pública.

Em resposta, o embaixador da China no Brasil, o sr. Yang Wanming, escreveu mensagens grosseiras, despudoradas, exigindo pronta retratação do parlamentar. Ademais, compartilhou uma publicação que fazia ataques abertos à família presidencial. Falou como um suserano diante de seus comandados.

Na sequência, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, como que para encerrar a discussão e visando não comprometer, para além do estrago inicial, a relação amistosa entre os dois países, de um lado rechaçou as declarações de Eduardo, asseverando que elas não condiziam com a posição oficial do governo, e, do outro, cobrou desculpas do embaixador asiático pelo tom desproporcional e extremamente agressivo da sua resposta.

Como tréplica, Wamming bradou ainda mais alto, dando mais a ver os dentes afiados. Chegou mesmo a nos ameaçar, dizendo que “sempre se dá mal” quem se atreve a mexer com os chineses. Falou como um monarca diante de um servo piolhento.

****

Ninguém esperava que se levantasse um Leônidas contra o diplomata chinês e nem que se declarasse guerra ao país de Xi Jiping. Nem mesmo que rompêssemos, de uma hora para outra, parcerias comerciais que se sabem essenciais às nossas economias.
Entretanto, como fôssemos uma nação de gente honrada, de gente briosa, esperava-se que:

1. o embaixador, depois de nos tratar como se a bichos terceiro-mundistas, a vira-latas universais, a leprosos mendicantes, fosse o mais cedo possível afastado de suas funções, e que Pequim dissesse palavras em desagravo;

2. que o conjunto da população, mesmo os que não concordaram com o posicionamento do deputado, e até quem, de comum, faz oposição ao governo Bolsonaro, repugnasse o tratamento vil que o sr. Wanming nos dispensou.

Pois, voltando ao exemplo antigo, mesmo com o erro diplomático de Leônidas, os demais gregos, uma vez que, malgrado as diferenças pontuais de ordem política e econômica, se viam espiritualmente irmanados, uniram-se como suicidas na guerra contra um inimigo infinitamente superior e, no fim, milagrosamente, impediram a invasão do império arrogante e conseguiram salvaguardar seu território, suas mulheres, seus filhos, seus velhos, sua língua e seus deuses.

Não obstante, o que vimos foi uma das mais abjetas demonstrações de servilismo e submissão de toda a nossa história — história feita por homens que não se curvaram aos portugueses sediciosos do Porto, aos ingleses vitorianos, aos EUA.

Vimos políticos e profissionais da grande mídia, sob as mais torpes justificativas, pedindo perdão ao embaixador, como se filhos amedrontados diante do pai severo. Vimos o presidente da Câmara dos Deputados, a Casa do Povo, afagando o agressor estrangeiro enquanto condenava cabalmente o compatriota. Colocando a disputa política circunstancial acima do amor ao país de seus pais e avós, da nação que lhes deu um idioma, uma cultura, da terra que lhes deu o alimento, milhares de pessoas compartilharam as descomposturas do diplomata forasteiro, achando graça naquilo, dizendo bem-feito ao deputado ofendido como se a humilhação a um dos nossos não mais dissesse respeito a todos nós.

O cúmulo dessa traição nacional veio do Grupo Bandeirantes.

A empresa de João Saad, que recentemente fechou uma parceria milionária com o China Media Group — a assessoria de imprensa do Partido Comunista Chinês, a mais longeva e das mais cruéis ditaduras que ainda vicejam no mundo — emitiu um editorial macabro chamando o nosso parlamentar de imbecil e imaturo, o nosso chanceler de idiota e inepto, e o governo cínico de grande amigo.

As palavras, a expressão do rosto, a rispidez com que o âncora do Jornal da Band leu o referido editorial, lembraram, mais que o famigerado vídeo do ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, uma obra do propagandista Joseph Goebbels.
A diferença é que o Grupo Bandeirantes, ao contrário de Alvim, não fez alusão a uma ditadura morta, cujos partidários, hoje, se é que existem, não passam de moleques sociopatas escondidos atrás de avatares obscuros na deep web. A Band fez propaganda escancarada à mais viva e poderosa das tiranias que há mundo contemporâneo.

Que isto não tenha causado uma comoção nacional, já é prova suficiente de que, ao contrário dos gregos de Maratona, não há mais uma comunidade de espírito entre os brasileiros.

Fôssemos invadidos amanhã pelo império comunista chinês, seus capachos aqui no Brasil, homens e mulheres espalhados na elite política, intelectual e midiática, engrossariam as fileiras asiáticas – sem titubear.


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