Pular para o conteúdo principal

Sem Aspas | Sola Fide – por Amanda Rocha


Caso tivesse a real dimensão das prováveis consequências de suas mazelas sucumbiria de temor, mas a realidade lhe era descortinada paulatinamente, numa medida inferior à certeza de que o que ainda não era capaz de vislumbrar se concretizaria: a firme esperança no que não se vê, mas se espera - a fé era seu alimento diário. A obesa conta bancária suprira um ambiente confortável, porém, as cifras ignoravam a cura, essa não constava à venda numa prateleira da medicina, ao menos disso tinha ciência. As dores do filho afligiam a alma num incessante emaranhado de pensamentos difusos revestidos pelo temor da perda. Refugiava-se em longas conversas com Deus, Ele fazia-se tão real quanto jamais pôde sentir algo, até mesmo sua própria existência poderia ser questionada, mas dAquela presença tranquilizante e de sobremaneira agradável não havia dúvidas; revelava-se como o sentido de sua existência, uma existência que transcende para o infinito; desses diálogos saía acalentado, respirava fundo e pronto para enfrentar o olhar cabisbaixo que queria se erguer da cama e sair a molestar alguns brinquedos ou folhear algumas páginas de um livro, talvez contar algum perrengue vivido na escola, mas ao invés disso estava enquadrado num quarto frio, colorido apenas por alguns desenhos trazidos pelos pais numa tentativa de pôr luz e brilho naquelas pálidas paredes de hospital. O espaço de troca entre a lua e o sol ampliava-se, cada dia naquele lugar pesava-lhe; o desejo de sair fazia o coração palpitar em cada traço de melhora, mas o que parecia avançar, regressou e os médicos desenganaram, ousaram abreviar sua admiração ao contemplar os belos traços pelos quais a natureza fora desenhada, uma obra divina demasiada bela; nessa ação de vislumbrar o infinito achava refúgio. Ao refletir, conduzia-se a um plano superior onde a dor não lhe perturbava, embora as lágrimas rolassem, ouvia um som de gotejamento, como se estivessem sendo aparadas por alguém, e sim, estavam. Foram sequências de entrega e clamor, dias e dias; em todos eles conduzia-se até a capela para em intimidade relatar seus medos; quando em meditação, sua concentração fora interrompida pela enfermeira:

Senhor, siga comigo, temos novidades.

Acompanhou-a, sentia que suas súplicas alcançara os ouvidos de Deus e o momento da colheita havia chegado. Seguiu-a sorrindo.



A indicação de leitura hoje é Forma e Exigências do Novo Testamento, de Josef Schreiner e Gerhard Dautzenberg. Deus vos abençoe.



Amanda Rocha é professora e escritora

Comentários


Postagens mais visitadas deste blog

Casa dos Pobres São Francisco de Assis precisa de ajuda

Com a pandemia do novo coronavírus, a Casa dos Pobres São Francisco de Assis, em Caruaru-PE, precisa de ajuda. A Casa, que atende a 77 idosos, está seguindo as recomendações das autoridades sobre a contaminação do vírus. Além da preocupação com a doença, já que todos os moradores do lugar fazem parte do grupo de risco, existe outra preocupação: a dos recursos financeiros para manter os trabalhos.

A instituição é privada e sobrevive de doações, mas sem a renda do estacionamento que funciona no local, as receitas da Casa têm diminuído. O estacionamento está fechado ao público desde a sexta-feira (20), de acordo com a orientação de evitar aglomerações e com o objetivo de garantir a segurança e o bem-estar dos moradores.
Entre os itens que a entidade mais necessita no momento, estão as fraldas descartáveis geriátricas. A Casa contabiliza o uso mensal de mais de 5 mil fraldas. O leite é outra necessidade dos moradores, que têm uma dieta em conformidade com a faixa etária.



Como ajudar? As doaç…

Artigo | Covid-19 e os rumos da educação brasileira - por Mário Disnard

Acredito que a experiência de 2020 será um marco decisivo na educação, visto que a pandemia do Covid-19 nos apresenta, mais do que nunca, a necessidade de repensar o papel social da educação para além do processo de escolarização. No Brasil medidas emergenciais foram tomadas para garantir o processo educativo, entre elas, o trabalho educacional remoto. No entanto, diante de tantos imprevistos, gestores, professores, estudantes e famílias encontraram-se num momento de muita pressão, com várias dúvidas e incertezas.

Diante da atual situação, os limites impostos têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação, o que nos remete a uma série de questionamentos: há efetivamente uma preocupação com a qualidade social da aprendizagem? O que este período nos informa a respeito de nossos estudantes e de suas famílias com relação as nossas práticas como educadores?O que faz sentido manter e o que mudar? É possível repensar o papel da escola e da sociedade na formação das novas geraçõ…

Solidariedade: grupo de voluntários distribui mais de 1.500 refeições em Caruaru

Em tempos de contágio do novo coronavírus, há outro sentimento sendo disseminado em meio à população: a solidariedade. A corrente do bem se espalha e as mãos que ajudam também são ajudadas pelas que recebem. Além da higienização do corpo, que é um dos protocolos das medidas sanitárias contra o covid-19, fazer o bem ao próximo ‘limpa a alma’ daqueles que percebem a condição humana de todos.

A pesquisa ‘Tracking the Coronavírus’, realizada pela Ipsos entre 26 e 28 de março, mostrou que o Brasil está no topo do ranking dos países quanto à preocupação com as pessoas mais vulneráveis. 70% dos entrevistados no Brasil afirmaram temer pelos mais debilitados.
Neste percentual, estão as missionárias Sabrina Carvalho e Sara Galdino, que moram em Caruaru, no Agreste pernambucano. Em meandros de março, elas iniciaram uma ação que, a princípio, parecia pontual e singela. “Quando as autoridades em saúde começaram a intensificar a necessidade de constante higienização das mãos, ficamos preocupadas com…