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Sem Aspas | As aparências importam – por Amanda Rocha


Estava sentada numa poltrona acolchoada de uma simples e requisitada clínica da cidade de Caruaru, a decoração memorava a nova campanha: O Novembro Azul. Os antigos lembretes do Outubro Rosa ainda recostavam numa das prateleiras por trás da gentil atendente. Um homem a meu lado direito revelava seus exames ao seu acompanhante, o qual tecia alguns comentários, mas logo tornavam a calar-se. Uma criança, sentada duas cadeiras depois da minha na fileira atrás da qual me reclinava e acompanhada por seus pais, buscava algo para entreter-se. Algumas mulheres, já senhoras e bem vestidas sobre seus scarpins coloridos de ansiedade e sorrisos minguados, conversavam sobre suas crises familiares, já outras, assistiam a um programa de auditório reproduzido na televisão presa à parede central, bem ao lado do filtro de água e biscoitos; penso que para uma senhora, especificamente a que se quedava à minha frente, o tema discutido era deveras relevante, pois seu pescoço se contorcia a cada passagem ousada de outro paciente dificultando-lhe a visão, ela detinha uma áurea branda e cabeça reclinada, cabelos tingidos e um leve aroma que me fazia recordar a minha bisavó; fui surpreendida pelo odor do antigo café com biscoito champanhe, apenas memória olfativa.



Decidi eu mesma também verificar o que de tão atraente era debatido na TV, observei que apresentadora conversava com diversos entrevistados, todos para mim desconhecidos, embora fossem tratados como artistas famosos; a mim, soavam como estranhos, contudo, mais bizarro ainda era sobre o que conversavam: literalmente dialogavam sobre nomes estranhos, nomes de pessoas, nomes muito, muito curiosos. Não sei se por falta de matéria ou por gostarem de discutir futilidades, aquele tema repercutia por longos e vagarosos minutos e eu mesma fui fisgada pela descabida irrelevância da discussão e cedi à atração de ouvir os depoimentos de pessoas nomeadas estranhamente e percebi que em regra o motivo das pessoas não gostar de seus nomes dava-se pela reprovação social. Num estalo tornei a mim e regressei à leitura que fazia antes de ser enlaçada pelos nomes estranhos. Estávamos todos ansiosos para sermos atendidos e sairmos daquele lugar, eu ainda mais, o vento gelado que saía do condicionador de ar penetrava como um ferro em minha rinite, enquanto meus joelhos latejavam. Com exceção da criança, certamente eu era a mais nova naquele consultório, mas gozava dos males que atormentavam os mais velhos.
Ahh como as aparências enganam. Flutuei em pensamentos, mas fui surpreendida por um rapaz solicitando ajuda, era um homem alto e forte, abraçado pelo vigor da juventude, uma excelente ferramenta para a construção de um país soberano e economicamente independente, todavia, dizia ele estar em situação de rua, junto com sua esposa e filhos, nesse instante fitei o seu rosto, não era ignoto. Vasculhei em minha memória sórdida e encontrei-o. Era ele, sim, sim, era ele. Conheci-o noutro dia, ou melhor, numa noite. Estávamos em grupo, entregando alimentos e roupas aos mais necessitados, como é costumeiro aos grupos religiosos, sobretudo do qual eu fazia parte. Seu nome já não recordo, mas seu rosto não olvidei, tão pouco sua história. Não possuía esposa, quiçá filhos, estava sim em situação de rua, o vício lançara-o à criminalidade e o vigor fora doado às drogas e à vida promíscua a qual se habituara. Não mentia ao dizer que tinha fome e talvez em seu íntimo também carregasse o desejo de ter esposa e filhos, era melhor que estar só, principalmente quando a solidão era envolta por companhias tão crespas. Ademais, aquelas palavras eram-lhe possivelmente mais que retórica, eram-lhe a garantia da próxima refeição. As pessoas não se compadeceriam de seu estômago vazio, muito menos estariam pré-dispostas a furtar-lhe a crise de abstinência ao craque, no entanto, a um pai de família, lançado ao ócio pela crise e que lutava bravamente contra as mazelas sociais que lhe sobreviera, dificilmente resistiriam. A aparência de asseio realizado ajudou-o; vestia roupas limpas, um rosto liso e um discurso constrangedor. Saíra da clínica com as refeições e drogas daquele dia garantidos.







A indicação de leitura hoje é Contos para Velhos, de Olavo Bilac. Deus vos abençoe.



Amanda Rocha é professora e escritora

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