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Sem Aspas - Sola Gratia, por Amanda Rocha

A madrugada resfriava o cobertor de fibras desgastadas e o orvalho descia sobre a única e desbotada janela daquele lugar esguio, vizinho a um antigo riacho que se tornara despejo de rejeitos humanos de odor cinzento e estimuladores de náuseas. Aquele ambiente não se casava ao brilhante espreguiçamento dos lábios de Luciana, tal movimento deixava seus dentes descompassados expostos, ao passo que exalavam sentimentos de gratidão e humildade. Contrariando a lógica do enfadonho destino de prisões frias, a moça provocava uma epidemia de alegria por onde passava; as suas consternações não detinham seus sonhos. A dispensa vazia ampliava o tom de sua voz cantarolando afinadamente um som de súplica e louvor. As dores da crise econômica lançaram-na ao desemprego, mas jamais lhe tirara o gozo de erguer os olhos ao azul-celeste e contemplar o derramamento das chuvas de esperança que a fazia aguardar firmemente os bons ventos que acalentariam sua face; embora o horizonte estivesse embaçado, aguardava na certeza de que o alcançaria. Relia incansavelmente as páginas da renovação das forças, descansava e levanta-se pronta para mais uma vez tentar redesenhar seu caminho; de porta em porta solicitava uma oportunidade, era vão, porém seus passos mantinham-se firmes. Possuía joelhos calejados pelas curvas da oração e suas lágrimas regavam sua adoração numa entrega total ao seu Criador. NEle esperava, sabia que nada lhe valeria buscar mantimento, abrigo e proteção se antes não o viesse do Alto. A Ele confessava suas frustrações e alcançava acalento, compreendia que aqueles dias seriam breves e serviam para reforçar sua armadura, a qual lhe assegurava no caminho que a conduziria ao seu Salvador. Sola Gratia. 

A indicação de leitura hoje é História da Reforma, de Carter Lindberg. Deus vos abençoe. 

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