Pular para o conteúdo principal

Sem Aspas | Homem nu tocado por criança, Jesus travesti, Funk proibidão e sequestro da filha de Moro: liberdade artística. Mas onde está o Belo? - por Amanda Rocha


O conceito de arte é amplo e inacabado no sentido de que todos os filósofos e artistas que ousaram fazê-lo não galgaram uma síntese que abarcasse toda a complexidade expressa nesse dissílabo. A unanimidade que perpassou séculos desde a Antiguidade são alguns questionamentos, dentre eles: O que é o Belo? O que é o gosto? Todos gostam da mesma coisa? A beleza está nos olhos de quem a ver? E a velha máxima: a arte imita a vida ou a vida imita a arte? Longe de conceituar e redarguir essas perguntas, esse texto objetiva fazer algumas críticas, além de realizar um breve passeio pelos caminhos já trilhados por renomados estudiosos.



Ao dividir a realidade entre o mundo sensível e inteligível, e justificando que o primeiro é a imitação do segundo, Platão passará a compreender que o Belo está pautado na noção de perfeição, de verdade e que a arte não seria capaz de promovê-lo, uma vez que essa seria um mero simulacro; a imitação da imitação, mas que encontraríamos o Belo em ciências tal como a matemática.

Os gregos compreendiam a arte como mimese, todavia, distinto de Platão, Aristóteles, percebia a arte com capacidade de fabricar o Belo; que o mundo sensível era o real e que a arte precisaria reproduzi-lo de forma simétrica, completa para assim ser arte, conter a beleza. O filósofo já compreendia a arte como agente de transformação, pois ao imitar o cotidiano expressava virtudes e defeitos, os quais serviam para reflexão e câmbio, ou seja, a arte possui em Aristóteles uma função educativa. A experiência artística é verossimilhante aos fatos ou àquilo que pode ocorrer, destarte, prepara o indivíduo para vida em sociedade.

Esses conceitos clássicos influenciaram e ainda interferem na produção artística ocidental, mas não são unânimes. Durante a era medieval os nomes de proeminência que buscaram conceituar o Belo foram: Santo Agostinho e Tomás de Aquino; o primeiro seguidor de Platão, o segundo de Aristóteles. Ambos possuem ligação estreita com o cristianismo, religião que predominou durante todo o período medieval e de inegável influência política. Não aleatoriamente, durante esse período a arte possuiu uma função catequizadora. Em Agostinho o Belo aproxima-se do divino, em Tomás de Aquino, para envolver-se do Belo a arte precisaria ser simétrica, completa, nítida.

Os conceitos cultivados durante os períodos clássico e medieval foram contestados por inúmeros filósofos da era moderna: Kant, Hegel, Rousseau, Schiller, Schopenhauer, Nietzsche, entre outros, apresentaram considerações distintas sobre arte e o Belo. Kant inserirá a concepção de sublime; Hegel relativizará conforme o tempo o modo de vislumbrar a beleza; Rousseau a entenderá como supérflua por ser produto da nobreza; Schiller contemplá-la-á como a possibilidade de as pessoas melhorarem suas condições de mundo; Schopenhauer dirá que a arte é uma forma de afastar o homem de seu desejo insaciável; para Nietzsche a arte serve justamente como estimulante dos desejos. Os conceitos são profundos e de ampla discussão, a qual não cabe num curto texto.

É compreensível, assim como descreveu Kant, que o Belo é belo em si mesmo, não depende de interpretação subjetiva, seu conceito é inquestionável. Quando se compreende distinto disso o que ocorre de fato é a negação e não poucas às vezes, a grande repulsa ao que é Belo. Essa ojeriza ao Belo visa unicamente relativizá-lo, negar que existe o feio, negar que existe, para além do bem, o mal.

A relativização tem epidemicamente coberto de vícios a sociedade brasileira ao ponto de conceder às mais sórdidas manifestações o rótulo de arte, ao passo que expõe imensa repulsa ao Belo e Verdadeiro. São ritmos embalados por letras vulgares e agressivas, pinturas que fazem apologia ao crime, literaturas e filmes que unicamente contribuem para uma total degradação sociocultural e ataques à moral pública, vilipêndio à fé cristã, ademais, a destruição histórico-cultural das raízes do povo brasileiro.

Ressalte-se que não se pode compactuar com a ideia de a arte ser produto exclusivo da nobreza; frise-se ainda que sua relação com a realidade é rotativa, ora essa inspira aquela, ora a realidade é modificada pela arte. O Belo, o Bem, o Verdadeiro são capazes de provocar as mais diversas sensações e ações em indivíduos de qualquer classe social. A arte, seja erudita ou popular, é plena desses conceitos. Rejeitar o profano, a mentira, o mal, é valorizar a verdadeira arte, é constituir uma sociedade justa, educada, repleta de valores eternos e imutáveis.

A indicação de livro hoje é a Arte de Escrever, de Schopenhauer. Deus vos abençoe.


Amanda Rocha é professora e escritora


Comentários

Postar um comentário


Postagens mais visitadas deste blog

Casa dos Pobres São Francisco de Assis precisa de ajuda

Com a pandemia do novo coronavírus, a Casa dos Pobres São Francisco de Assis, em Caruaru-PE, precisa de ajuda. A Casa, que atende a 77 idosos, está seguindo as recomendações das autoridades sobre a contaminação do vírus. Além da preocupação com a doença, já que todos os moradores do lugar fazem parte do grupo de risco, existe outra preocupação: a dos recursos financeiros para manter os trabalhos.

A instituição é privada e sobrevive de doações, mas sem a renda do estacionamento que funciona no local, as receitas da Casa têm diminuído. O estacionamento está fechado ao público desde a sexta-feira (20), de acordo com a orientação de evitar aglomerações e com o objetivo de garantir a segurança e o bem-estar dos moradores.
Entre os itens que a entidade mais necessita no momento, estão as fraldas descartáveis geriátricas. A Casa contabiliza o uso mensal de mais de 5 mil fraldas. O leite é outra necessidade dos moradores, que têm uma dieta em conformidade com a faixa etária.



Como ajudar? As doaç…

Artigo | Covid-19 e os rumos da educação brasileira - por Mário Disnard

Acredito que a experiência de 2020 será um marco decisivo na educação, visto que a pandemia do Covid-19 nos apresenta, mais do que nunca, a necessidade de repensar o papel social da educação para além do processo de escolarização. No Brasil medidas emergenciais foram tomadas para garantir o processo educativo, entre elas, o trabalho educacional remoto. No entanto, diante de tantos imprevistos, gestores, professores, estudantes e famílias encontraram-se num momento de muita pressão, com várias dúvidas e incertezas.

Diante da atual situação, os limites impostos têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação, o que nos remete a uma série de questionamentos: há efetivamente uma preocupação com a qualidade social da aprendizagem? O que este período nos informa a respeito de nossos estudantes e de suas famílias com relação as nossas práticas como educadores?O que faz sentido manter e o que mudar? É possível repensar o papel da escola e da sociedade na formação das novas geraçõ…

Estímulo à leitura através da produção literária

Dentre os ofícios do professor, encontra-se o de conduzir os alunos ao universo das artes; ao professor de língua portuguesa, cujo objeto de estudo é a palavra, abordar a arte literária é fundante, nesse intuito, os professores da Escola de Referência em Ensino Médio Professor Lisboa, localizada no bairro da Cohab I, em Caruaru — Pernambucano promovem bimestralmente saraus literários com o foco no despertar da leitura e produção escrita de seus alunos. 



Anualmente, a escola realiza o Concurso de Redação Professora Fernanda Freitas (esse nome é homenagem póstuma a uma ex professora); o concurso elenca diversos gêneros textuais dentre literários e argumentativos; este ano, em sua quarta edição e com o tema “Pelos caminhos da leitura: descobertas do eu e do mundo” os alunos debruçar-se-ão nos gêneros: conto, crônica, dissertação-argumentativa, carta e/ou poesia.
Ademais do concurso, na manhã de premiação dos primeiros colocados em cada categoria, ocorre concomitantemente a publicação da An…