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Sem Aspas | Que Estado é este? - por Amanda Rocha

Bela é uma jovem que mora num lindo paraíso, praias límpidas e quentes, produtor de ritmos dançantes, atrevidos e de uma literatura vasta e abundante, vegetação e fauna diversificada, clima abrasante e festivo. Diante da exalação de alegria, Bela quedava-se triste. Seguia para a escola diariamente, mas temia ser vítima da imódica violência que atingia seu estado. Superando o medo e os Boletins de Ocorrência, Bela seguia para escola com o caderno e caneta que recebeu de seus pais, pois o governador não entregara o kit escolar nem a Bela, nem a nenhum de seus colegas de sala, de igual modo, o fardamento. Seus pais fizeram muito esforço para comprar o produto. Custava muito. Estavam desempregados em decorrência da transferência das empresas nas quais trabalhavam, essas se mudaram para estados cujas taxas de impostos eram menores. A merenda também era escassa e de qualidade baixa, mas era compreensível, já que o governador precisava ofertar um exímio Buffet, no valor de R$ 138 mil, no camarote de um Festival artístico que ocorria durante o inverno, talvez isso também justificasse o não pagamento do piso salarial aos professores de Bela, possivelmente era uma maneira de poupar para investir em flores e crustáceo servidos no Palácio do Governador e também em paletós luxuosos, nada mais justo.

Pixabay/Reprodução

Numa aula de matemática, Bela aprendeu sobre porcentagem e aplicou seus conhecimentos à conta de água, logo chegou à conclusão de que ela ampliara em 6,12%, viu em alguns escassos noticiários de que havia sido a mando do tal governador, pensou ela: ele dever estar com dificuldades de pagar aqueles R$ 31,2 milhões que deve à empresa de saneamento e água, então, socialista que é, decidiu repartir com a população a dívida. Aprendeu o que era socialismo nas aulas de humanas, era-lhe transmitido como um sistema justo e igualitário, mas ela confundia-se muito quando fazia análises comparativas entre a teoria e a prática de países socialistas. Bela percebeu que servia para análises de figuras de linguagem, já que vislumbrava claramente as antíteses e os paradoxos por eles propagados: liberdade sem direito a críticas, pluralidade de um só partido político, respeito e tolerância atacando pensamentos opostos, eram quase que incontáveis os exemplos e seguiam como reticências.

Alguns de seus professores passavam horas explicando como o núcleo de gênero era importante para a formação dos alunos. Bela queria entender se havia relação entre os números de acidentes de trânsito e a 8ª posição do estado no ranking das piores estradas do país, mas só ouvia que o atual mandato coletivo no legislativo (ou mandatA, como gostavam de se intitular) estava produzindo grandes benefícios ao estado, tal como a tentativa de reprimir a liberdade de expressão de alguns grupos religiosos que fossem considerados preconceituosos e fundamentalistas (PL 239/2019). Bela percebeu que nessa categoria encaixava-se sua família, não que eles fossem preconceituosos, mas que os considerariam assim por opiniões embasadas em seus preceitos de fé. Temia retaliação, reprovação, e assim, pouco a pouco se fechou em seu mundinho e de lá observava que alguns colegas pensavam semelhante a ela e questionavam a denúncia feita contra o governador sobre o destino dos R$ 1,2 bilhão repassados para cuidar da saúde pública, mas só ouviam como resposta que o enfrentamento ao preconceito de gênero era essencial ao desenvolvimento de todos os estudantes.

Um novo aluno chegara à escola de Bela, viera de outra cidade e narrara aos demais colegas que lá a construção da Unidade de Atenção Especializada estava paralisada, mas as respostas insistiam em citar que o núcleo de gênero era demasiadamente importante ao desenvolvimento pleno de cada estudante. Muitos dos professores flutuavam ao falar sobre esse tema para os discentes (como gostavam de chamar os alunos). Tudo o que aprendiam nas exímias formações era reproduzido com muita prazia. Sentiam-se ultrarrevolucionários desbravando novas concepções e teses ultramodernas que os tornavam ultra intelectuais.

Alguns alunos ainda ousaram questionar sobre o fechamento do órgão que investigava corrupção, logo foram imperativamente silenciados, sobre isso sequer os sindicatos ousavam falar, na verdade esses não questionavam nenhum ponto da administração estadual, fingiam atuação tecendo críticas às políticas federais, assim, poupavam perseguição e ainda contribuíam para a implantação de suas filosofias políticas.

A vida seguia nesse estado: alto índice de violência, abalos econômicos, afronta à moral pública, estradas destruídas, caos na saúde, mas na educação, com muito esforço, alguns até conseguiam analisar certos aspectos da matemática, (o exemplo é a maquiagem de dados), mas se o tema fosse gênero, os alunos sabiam discutir com propriedade. Pensando nisso, o grupo de legisladores não poupou esforços na confecção de leis que viabilizassem ainda mais a discussão sobre essa temática. Só resta agora encontrar uma utilização para tamanho conhecimento, a aplicação da teoria - Bela e seus amigos aguardam ansiosos.


A indicação de livro hoje é Ideologia de Gênero na Educação, de Marisa Lobo. Que Deus vos abençoe.


Amanda Rocha é professora e escritora

Comentários

  1. Se Bela não for enquadrada na estatística percentual do quadro de minoria insignificante, talvez se encaixe num novo musical:
    "A Bela e as Feras".
    Entretanto, seria cômico se não fosse tão trágico!

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