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Crônicas e Poesias | Qual o imprudente? - por Nelson Lima


Dia desses, pela madrugada, o sono me faltou e fui até a janela respirar ar e distrair a mente, que por estar perturbada me deixava desperto. Foi aí que vi um rapaz caminhando, mesmo pela minha calçada e pensei: que falta de juízo, caminhar despreocupado uma hora dessas.



Eis que uma mulher vinha do lado oposto, toda enfeitada parecendo, como se diz hoje, uma piriguete. Parecia inquieta e pensei ser uma dessas desventuradas consumindo drogas, mas não, se aproximou do rapaz e o beijou sutilmente, indiscretamente recuei mais da janela e com rosto de impudica a ouvi dizer: estou doando meu corpo em troca de prazeres; hoje paguei todos os meus votos. Daí voltei a ponderar: ela tá usando termos religiosos para convencer o pobre rapaz, como que se ele fosse com ela pra cama não seria errado, pois ela teria pago todos os erros!

E ela continuou convencendo-o e disse que a cama estava bem forrada com lençóis limpos e cheirosos e que se ele quisesse poderiam até amanhecer o dia se alegrando em amores. Foi aí que ele balbuciou algo e pela resposta dela acho que perguntou se ela era casada, pois ela respondeu: meu marido não está em casa, viajou pra longe, levou até o cartão de crédito, por isso vai demorar dias pra voltar.

E ele se foi com ela, cabisbaixo tal qual boi vai para o cercado, tal qual insensato vai pra sentenças de penalidades...

Foi quando dei por mim e estava lendo Provérbios 7:6-27.

E fui dormir.




Nelson Lima é teatrólogo, escritor e poeta.

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