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Sem Aspas | Primeiro Amor - por Amanda Rocha

Primeiro amor, ah o primeiro amor, por certo marcará nossa vida por toda a existência. Um dia, bem que de repente, pá! Pronto! Descobrimos que estamos amando. Comigo foi assim, pouco a pouco fui cativada por aquela voz única, aqueles cabelos encaracolados, aqueles olhos que liberavam magia, aquela forma ímpar de me fazer sorrir. Minhas manhãs eram preenchidas por toda aquela alegria e fantasia, mais de tudo, aquelas belas e enormes bochechas, ah... Que bochechas! Eu suspirava, sorria, era apenas uma menina de oito anos, mas já sabia o que era paixão. Aquilo que sentia era paixão. Esse sentimento era estimulado pelo sigilo ao qual tinha de estar submetido, afinal era apenas uma criança, era isso que achavam de mim, eu na verdade já me sentia uma adulta capaz de amar e elaborar planos econômicos capazes de erradicar a pobreza mundial. Não compreendia o porquê das coisas possuírem preços tão altos. Até que elaborei uma política do preço único, assim tudo custaria apenas R$0,01, desta forma todos poderiam pagar por tudo; na realidade esse plano foi uma maneira que encontrei para saciar o desejo que tinha de comprar certos brinquedos utilizando as moedas que guardara em meu porquinho, sendo mais sincera não recordo qual era o formato do meu cofrinho, mas sei que juntamos tantas moedas que foram suficientes para comprar muitos doces e pipocas na venda do Sr. Amaro que ficava na esquina de casa. Certa vez, reuni todos os colegas de sala e fundamos um grupo teatral, o qual ensaiou um mega espetáculo, cuja finalidade era arrecadar uma fortuna milionária com a bilheteria do espetáculo e distribuir dentre as crianças carentes exterminando a fome e a miséria. Infelizmente, nossa performance jamais evoluiu dos ensaios para as apresentações, não conseguimos findar as discussões que decidiriam quem exerceria o papel da Chiquinha, os meninos não chegaram ao acordo de quem seria a menina mais chata da sala e que poderia interpretar sem realizar grandes esforços, embora Diana e eu estivéssemos liderando a eleição. Analisando hoje, é provável que minha fascinação por aquele príncipe encantado resida justamente nas ações sociais que praticava. Ah como o amei. Minha felicidade se fez completa quando minha avó chegou com uma enorme caixa embrulhada, era um presente e a princípio não imaginei que ali na minha frente, separados por um mero embrulho, lindo e infantil, estava meu grande amor, ele saíra das telinhas e estaria a partir de então ao meu lado. Era meu companheiro de aventuras. Juntos roubamos goiabas do pé da casa da minha bisavó, tocamos diversas campainhas e saíamos correndo, guerreamos contra arqueiros inimigos que invadiram nossa casa, cantamos junto com os Power Rangers. Tudo passou a ter sentido completo com sua presença, o Fofão agora me pertencia. Eu tinha um príncipe e juntos protagonizamos os beijos mais quentes que eu daria em toda a minha vida. Meus lábios ardiam, ficava com as bochechas e lábios vermelhos e inchados, eu cria ser a paixão, minha mãe associava a alguma intoxicação alimentar, na realidade eu era alérgica ao látex que compunha o material do qual o Fofão era constituído.



Mas como toda a história de amor sofre com interferências externas, conosco não poderia ser diferente. Estávamos vivendo uma relação repleta de compreensão e afeto, ele nunca reclamava das minhas ações, dedicado, divertido, inteligente, caridoso, me acompanhava onde quer que fosse. 

Lembro apenas de uma discussão, uma garota que o abraçou muito forte e queria levá-lo para si, foi na saída da escola, ele ficou inerte, como de costume, discuti. Ele deveria ter se posicionado e dito que me pertencia; reclamei até chegarmos a casa, ele como sempre, mudo, não disse nada. Mas retornando ao fato das influências externas que quiseram abalar a nossa relação, os maldosos e invejosos começaram a espalhar a notícia que o meu Fofão havia feito um pacto com as forças do mal para obter um programa na TV. O questionei sobre isso, mas como sempre, mudo, não disse absolutamente nada. Preferi compreender o seu silêncio como indignação por uma acusação tão absurda. Minha mãe, no entanto decidiu averiguar. Primeiramente nos separou, afinal o risco de haver armas perfurantes no interior do Fofão causava-lhe preocupação. Vela preta, faca, espada, pena de galinha de macumba, ossos de Tiranossauros Rex, arma de fogo, granadas, dentre outros objetos descritos na acusação contra meu príncipe, tudo isso e mais alguns outros que minha mãe disse que não poderia me falar estariam dentro dele, como seus órgãos. Eu não conseguia relacionar o fato dele estar vivo com tantas coisas dentro dele. Como assim? Tudo isso e nenhum órgão perfurado? Nenhuma dor? Nenhum mal estar? Creio que ele seria incapaz de me fazer mal.
Numa manhã cinzenta de agosto, ao sair para ir à escola recebo a triste informação de que naquele dia minha mãe faria uma cirurgia, na verdade estaria mais pra autópsia, já que analisaria todo o interior do meu Fofão e assim o tornaria um defunto. Naquele dia não consegui me concentrar. Apenas imaginava minha mãe vestida de branco, com telescópio em volta do pescoço, bisturi nas mãos vestidas por luvas cirúrgicas, e sobre uma maca de aço, fria, estava o meu príncipe com aquelas bochechas mais belas do mundo, aqueles lábios ardentes, ah aqueles beijos... Meu coração estava dilacerado, sabia que aquele coração apaixonado e que batia por mim estava em apuros. Será que sobreviveria? Naquele dia não me concentrei na aula, no que a tia dizia, tão pouco no que os coleguinhas falavam ou faziam; estava ansiosa para voltar a casa e saber o que ocorrera com o meu Fofão. Não sabia em qual ritmo deveria caminhar para casa, se a passos rápidos para revê-lo o quanto antes, ou se a passos curtos como quem caminha para um sepultamento e aguarda a realização de um milagre. Em minha mente um filme de nossos melhores momentos. Nossos beijos, tão calorosos, picantes, ardentes, bendito seja o látex. Ah que beijos. Neles meus pensamentos pousavam.

Preocupava-me com seus sentimentos, o seu coração estava triste. Finalmente cheguei em casa. Antes de entrar percebi que o descompasso do meu caminhar era causado por uma arritmia; meu coração saltaria do meu peito por um imenso corte rasgado pela angústia, sairia e gritaria pela morte. Abri lentamente a porta, não ousei chamar por minha mãe, nem precisei, ela logo apareceu e me convidou a sentar, estava prestes a sofrer um mau súbito quando ela começou a narrar a situação a qual o meu príncipe fora afligido. "Filha, ouça bem" interrompi, "mãe seja direta", lhe falei com voz embargada; ela prosseguiu contando que em companhia e com o auxilio da minha avó o Fofão havia sido despido, delicadamente descosturado e melindrosa e minuciosamente averiguado, então ela relatou "tudo o que encontramos foi uma estaca para sustentação da cabeça dele, apenas isto". Eu indaguei "como assim?" "tudo o que encontramos foi uma espécie de espada para manter o equilíbrio e erguida a cabeça dele, nada além disso" enfatizou minha mãe. Quer dizer que meu Fofão não tem coração? "Como assim?" sem compreender a pergunta, replicou minha mãe. Sem saber como agir ou reagir, chorei. Minha mãe me consolou mesmo sem entender porque eu chorava. Contive o choro e perguntei "E a boca dele está tudo bem com ela?".



Neste dia a indicação de livro é O Menino no Espelho, de Fernando Sabino, que Deus vos abençoe.



Amanda Rocha é professora. Escreve em ConTexto às quintas-feiras

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