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Prece - por Ricardo Gondim

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba”[João 7.37]
Venho a ti, Mestre das parábolas, com sede de poesia. Viajei por compêndios exatos. Perambulei por pensadores herméticos. Li e reli. Nos recessos da alma permaneço, porém, com sede.
Entardeço na vida. Em meio à carência de delicadezas, prometo prestar mais atenção em tuas estórias, Mestre da narrativa. Preciso escutar o inaudível.


Dissecar, analiticamente, tudo não conduz ao mistério. Procurar solucionar o inescrutável, exaure. Só a poesia leva ao arco-íris do devaneio. Só nas palavras vestidas de alegoria se percebem os meandros do eterno. Anseio por meditar; ruminar no insólito e sobrevoa as nuvens. Ao contemplar o mundo muito do alto verei santos e vilões, heróis e tímidos, damas e prostitutas como uma só humanidade.
Abandono a meta de solucionar paradoxos. Admito, Mestre da imaginação, que o reino pertence aos pequeninos; só eles absorvem a verdade com o coração desarmado. Devo sentar mais vezes com crianças até intuir o extraordinário.
Quero me embeber com as palavras que fluem da ternura. A prosa poética desobstrui os ouvidos para o essencial. Anseio me deixar irrigar com textos que destilam uma bondade incomum. Buscarei inundar os fossos do egocentrismo nas entrelinhas da fantasia sagrada.
Venho a ti, Autor da vida, com sede de humanidade. Confesso: a aridez do mundo me fere. Me sinto corça desgarrada. Não faz muito tempo, me empolgava com bravatas alheias. Me iludia com impostores religiosos. Negligenciei a mensagem central de Mateus 25: só entrará no céu quem apresentar carta de recomendação de pobre, exilado, ou discriminado.
Os insensíveis não pertencem ao teu reino. Diante da miséria que oprime e rouba o futuro, os que não transformam sensibilidade em ações, também não são habitados pelo Espírito de Cristo.
Em minha sede, abraço o mandato de ser empático com os que sofrem. Trancafiarei as portas da alma ao cinismo. Como virar o rosto para os mesmos porões escuros onde naufragam africanos? Diante da maldade humana muitas vezes hesito em reagir. Mestre da vida, ajuda-me a não ser covarde diante da sorte do nordestino no sertão sem chuva, sem escola, sem posto de saúde.
Venho a ti, Cristo crucificado, com sede de humildade. Vejo-te esvaziado e me convido ao desapego. Recorro à tua afirmação de que os mansos herdarão a terra. Celebro essa esperança pois sei que a fraqueza do amor é a força mais formidável do universo. Recuso cobrar de mim o desempenho que jamais alcançaria. Ao me encantar com a ilusão de ser perfeito, já me fiz verdugo de minhas inadequações. Aliado à graça, terei mais alegria com o homem que sou.
Assim, convido o meu coração a celebrar a vida dos outros por aquilo que são, e não pelo que eu gostaria que se tornassem.
Anseio pela não-violência. Farei da paz a pedra de apoio da minha vocação. Relembro que tu, Jesus de Nazaré, abriste mão da glória. Preferiste a cruz. Em tua morte, o paradoxo da fragilidade do Deus encarnado se transforma em notícia alvissareira: as vestes da arrogância são satânicas e a toalha da da gentileza, divina.
Venho a Ti, Viajante do caminho de Emaús, com sede de companhia. Não pretendo encarar as estradas da vida cerrado em resmungos. Quero cantar: “Amigo é coisa para se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração”. Desejo me manter o companheiro que nunca tenta oprimir, pois tu, o Rei da glória, nunca chamaste vassalos para tuas festas. Meu lema será Provérbios 17.17: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”.
Venho a Ti, Fonte de água viva, com muitas sedes. Ouso aceitar teu convite para o grande banquete com os mesmos andrajos com que lutei e peregrinei a vida inteira. Antes que se rompa o meu fio de prata, mata minha sede e sacia minha fome; e do meu interior fluirão rios de água viva.
Soli Deo Gloria

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