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Fora o Foro: Revolução dxs Bichxs – por Amanda Rocha


Esse era um dia muito importante, a reunião tão ansiada definiria as ações e medidas adotadas para transformar todo o país. A repercussão seria imensa, a mudança de regime político e econômico conduziria a atual realidade e os cidadãos daquela Zona Atlântica para caminhos ainda não percorridos, isso causava um misto de alívio e temor. Por anos, num confuso silêncio planejaram, agora este era o grande momento, conseguiram reunir a muitos, todos unidos num só propósito: construir um Foro, deliberar ações, executá-las e, sobretudo, alcançar o poder, todo o poder. A missão não seria simples, teriam um longo caminho a percorrer. Já fora provado, em períodos históricos anteriores, a ineficácia da revolução armada, o caminho era a transformação cultural, ou ao menos iniciar por essa, isso era lido nos livros mais modernos. A Floresta estava atenta, presidentes, líderes governamentais, grandes empresários, um grande alvoroço se formara. A imprensa buscava registrar tudo, nenhum detalhe poderia ser perdido. Era um dia para mudar a história. O Grande Rato presidiria a reunião, estava eufórico por vivenciar aquele marco histórico, narraria sua expectativa e o quanto ansiava ver os resultados das ações deliberadas naquela ocasião. Toda ação fora calculada, o máximo de cautela era exigido para que não lhes fossem imputados alguma contradição, assim se posicionaram todos à esquerda do Grande Rato, o grande líder, embora de pouco estudo e desprovido de um dos dedos de suas patas, o qual não se sabe como perdera, estava muito embriagado para se lembrar, mas conseguira forjar ser um acidente de trabalho, assim conquistou uma boa aposentadoria que lhe servia para alguns caprichos. A primeira armação já foi provar que trabalhava, na verdade jamais o fez em toda a sua vida, logo que contratado pela empresa Metalíticos se envolveu com o sindicato da classe e justamente por isso passou ser o Grande Rato. Ganhou o título de Doutor Honoris Causa não se sabe o porquê, jamais leu sequer um livro na vida. Conquistou os corações de muitos por reservar uma parte da Zona para plantação de comida que era distribuída para cada família, ademais de alimentar algumas ervas pareciam provocar alucinação e total dependência. Logo à esquerda do Grande Rato se encontrava a Dona Perua, toda enfeitada, colorida e plumada, havia pintado as unhas e aplicado Botox para conter o volume impetuoso de suas penas, calçava um Carmen Steffens, vestia um Chanel, o odor era de um Armini, preferia os mais fortes, todos os itens foram presentes do Rato com quem possuía grande intimidade; segurava uma faixa com a frase: meu corpo minhas regras, mastigava um chiclete e ouvia em seu Iphone de última geração os hits que estavam no topo da parada de sucesso até aquele momento, mas já rejeitava os da semana anterior, dizia que eram músicas velhas e ultrapassadas, embalava o popozão conforme a música que ouvia, e assim o Grande Rato delirava, disso só mesmo um copinho de pinga para distrai-lo. Ao lado da Perua estava um coletivo de Veados, esses vestiam camisas coloridas de modo que juntos formavam um arco-íris, nelas estavam estampada a frase: Lutamos e colorimos. Evocavam gritos de guerra e diziam que consideravam justa toda forma de amor. A euforia tomou a todos e queriam se pronunciar, expor seus objetivos e condições para integrarem aquele plano, o barulho tomou todo o espaço necessitando a intervenção do Grande Rato pedindo que se concentrassem. Após muita discussão e exercício do jus esperniandis, os Veados ainda discutiam para decidir qual deles seria o porta-voz do grupo, julgavam injusto que apenas um usasse a tribuna, dessa forma não poderia haver uma equidade de gênero. Diziam precisar que cada categoria tivesse um representante, um transmacho, outro transfêmea, outro transpurpurina, outro transorientado, mais um transformado, e outro transtornado, no que não foram atendidos, alguns começaram a chorar, mas não conseguiram transformar as regras, e por não transbordarem para um desfecho, foram obrigados a transcenderam a oportunidade às borboletas, que escolheram uma mariposa negra para representá-las. Essa era peluda, voz grave, escarrava fortemente no chão, tinha o péssimo hábito de coçar os órgãos genitais e estava parcialmente despida. A última vez que convocaram e tentaram realizar essa reunião esta mesma Borboleta/Mariposa teve revelada sua incontinência urinária, inclusive esse fora o motivo do insucesso da reunião, era tanta urina no chão que por pouco não foram transportados para outras regiões. Ela começou a urinar e as demais borboletas pensaram que era uma espécie de manifestação e começaram a urinar também. Foi “mijo” pra todo lado, paredes, cadeiras, enfim, ficou insustentável dá prosseguimento a reunião daquela forma. As borboletas compactuavam com a bandeira erguida pela Perua, “meu corpo minhas regras” cada Perua ou Borboleta/Mariposa poderia fazer de seu corpo o que desejasse, ninguém poderia sugerir nenhum padrão de conduta; ter vários parceiros sexuais era algo permitido apenas a elas, e que deveriam prioritariamente escolher outras Peruas e/ou Borboletas para se relacionarem, afinal pertenciam a uma casta superior, mesmo que não declarassem isto, era o que pensavam. Desenvolveram inclusive seminários para discutir sobre métodos contraceptivos lésbicos. E para o caso de alguma, principalmente as Peruas, não resistir a algum macho cruel e opressor e fossem obrigadas a sentir prazer, e este macho impondo-lhe seu patriarcalismo lançasse dentro de alguma delas aquela gosma procriadora, aconselhavam a extração precoce e urgente do pseudofilhote.



Ainda participava da reunião a senhora Melancia com a bandeira da sustentabilidade, criticando os adeptos da filosofia vegana, dizia que os vegetais também possuíam almas e sentimentos tal como os animais e deveriam ser protegidos; sugeriu que a melhor maneira de alimentar-se era absolver nutrientes da luz solar e da terra. Senhores Tucanos engravatados e elegantes reivindicavam a liderança e acusavam o Grande Rato de roubar-lhes as ideias e apropriar-se delas.

Muitas Cigarras Cantarolantes vieram de uma baía para animarem a reunião, além de cantarem eram as principais conselheiras, uma vez que a arte as fazia compreender todas as necessidades do país. Uma multidão de Jumentos, Jegues e Burros faziam churrasco de carne embutida, comiam pães e bebiam cevada.

Também estava presente a Cavala Marinha, ela era umas das maiores e mais importantes líderes, substituía o Grande Rato quando necessário. Formada em economia, trazia uma imensa habilidade com as engenharias e ultimamente dedicava-se a um projeto altissonante e caso alcançasse êxito desenvolveria a economia vendendo tal tecnologia, embora ainda não obtivesse sucesso não descansaria até conseguir estocar vento. Filosofia também era uma de suas áreas de estudo, seus discursos, profundos e amplos, obtinham grande repercussão nas mídias e redes sociais. Todos seus projetos eram zelosamente armazenados na nuvem, a dificuldade era que ela não compreendia o que isso significava, mas prometera apurar isso direitinho.

Ainda presente e oscilando, na posição de ministro, ora com o Grande Rato ora com os Tucanos, estava o Sardinha. Residia no nordeste da Zona Atlântica, quedava-se ao lado de cada um que liderasse. Seu irmão era seu maior companheiro. Naquele momento planejava e declarava ansiar o posto alto do comando, embora não tivesse grandes possibilidades reais para isso. Assim, decidiu propor a extração de todos os nomes listados no Seres Proibidos de Comprar, era um serviço criado para listar os animais que possuíssem alguma restrição de compra. Muitos dos habitantes daquela região se encontravam no SPC, sigla que sintetizava e popularizava a lista. Essa proposta talvez fizesse o Sardinha se tornar tão popular ao ponto de ser escolhido o novo grande líder. Eram muitos os listados, e cada um buscava justificar sua inclusão. Até mesmo os Tucanos deram palpites, culpavam os desejos insanos do Grande Rato, e esse não deixou impune, alegava que a culpa era dos Tucanos. Essa discussão parecia não ter fim e ninguém reconhecia a responsabilidade.

Embora divergissem, estavam unidos e seguiam na mesma direção e num só propósito: cuidar daquela Zona. Mas um inimigo se erguia e possuía, mesmo só, chances reais de liderar e modificar amplamente o sistema da região, expurgando, de seu possível governo, todos os que orbitavam ao redor do Grande Rato. Esse inimigo se tornara o foco da reunião. Ele era Humano e acreditava na existência de um único criador dos animais e homens, essa razão já seria suficiente para tamanha rivalidade que surgira entre ele e os participantes daquele Foro. Ademais, ele fazia contraposição sobre as bandeiras erguidas pelos grupos de apoio ao Grande Rato, tornando-os, assim, inimigos mortais.

Enquanto discutiam métodos para aniquilar esse opositor foram surpreendidos pela chegada dos Hamster-Chineses lutadores que possuíam mandato judicial para conduzir o Grande Rato para o cativeiro, dentre as diversas acusações estava a de reter para si e aliados a maior parte das moedas utilizadas para financiar o plantio dos alimentos que distribuía. Nem mesmo ele ficou livre do efeito alucinógeno dos alimentos cria e afirmava ser a viva alma mais honesta que existia. Também foi acusado de lavar moeda no Rio Central, poluindo-o. Ele e seus amigos negavam as acusações, diziam não haver provas, embora a cor do Rio sofresse nítidas transformações. Instaurou-se uma grande confusão, os Hamster-chineses tiveram de abrir os guarda-chuvas quando um dos veados com incontinência salivar começou a discursar. Enquanto isso, os demais moradores da Zona Atlântica acompanhavam tudo pelas reportagens especiais elaboradas pela imprensa. Parecia uma final de copa do mundo de futebol, a expectativa era demasiada, o resultado incerto e as revelações drásticas. Enquanto os fatos eram revelados, descobriram mais um dos efeitos do alimento distribuído pelo Grande Rato: parcial cegueira. Os que com esse alimento se fartaram ou mesmo alguns que o provaram ficaram inaptos a distinguir o concreto do abstrato, o real do imaginário, as verdades de mentiras. Sequer percebiam a água suja que corria pelo Rio Central. Tais efeitos foram comprovados e atestados por especialistas, mas insistiam em negar, até mesmo contrataram outros especialistas para forjarem um ar científico e confrontarem a realidade, no que em grande parte eram aceitos, isso também se devia aos efeitos alucinógenos da alimentação.

O Embate parecia não ter fim, mas passado algum tempo o Grande Rato decidiu se entregar e se dirigiu ao cativeiro. Uma Cobra rastejante e traiçoeira ocupou seu lugar de líder e por um tempo saciou os moradores com alimentos distintos do ofertado pelo Grande Rato e seus aliados – embora ainda continuasse a ocorrer os desvios e lavagens de moedas no Rio Central, não era em quase nada diferente do Rato – a mudança alimentar reduziu pouco a pouco os efeitos em alguns Jegues, Jumentos, Burros e outros animais que não se engajaram tanto na defesa do Grande Rato. Destarte, esses seres recuperaram paulatinamente a visão e a sobriedade. Fator que atemorizava aos aliados e ao Grande Líder. A consequência era o crescimento do Humano nas pesquisas eleitorais, as pessoas estavam prestes a eleger o novo Líder. E sua chegada ao poder era apenas questão de tempo.

Agora, mais que antes, deveriam seguir unidos, uníssonos e determinados a integrarem um plano que além de resgatar o Rato o daria de volta o poder. Criam que apenas ele seria capaz de derrotar as propostas do Humano, o qual denominavam de Maluco, que dizia defender a liberdade de todos em plantar e comer o que desejassem. Para o Humano, todos tinham o direito de nascer, de se defender e assistirem aos filmes que desejassem. Afirmava que purificaria o Rio Central e jamais lavaria moedas nele. Tais propostas eram inadmissíveis. Apenas ao Grande Rato cabiam às escolhas.
  
As Cigarras Cantarolantes não continham o desespero, afirmavam que nem mesmo a baía de onde vinham seria um lugar agradável para residir caso o Humano obtivesse êxito em seus propósitos governamentais. Já faziam planos de mudar-se para outro país. Aquela Zona não seria mais a mesma sob a liderança do Humano. As regalias e os subsídios para produzirem mecanismos de atraírem a simpatia da população para as bandeiras que defendiam estavam ameaçados e todos os esforços realizados até o momento seriam reduzidos a nada. Concluíram que a única solução seria exterminar Humano. E esse passou a ser o foco da reunião: como executar a sua exterminação.

Depois da turbulenta prisão do Rato em cativeiro a reunião foi cessada, seus aliados criaram um órgão que chamaram de PCC – Primeiro Comando do Cativeiro, desde lá o Rato ainda arquitetava e ordenava o que deveriam realizar para primeiro tolher a Cobra Rastejante que assumira a liderança daquela Zona e em seguida extinguir completamente o Humano, o mais cotado para assumir a liderança do país. Desde queimadas, passando por cusparadas e fezes à estocada fizeram tudo para denegrir e aniquilar o Humano, mas não alcançaram seus propósitos, se realmente existia um único Criador dos animais e humanos, Ele estava cuidado dele. A Cobra Rastejante também organizou seus correligionários para derrubarem o Humano, nada adiantava, nada conseguia destruí-lo parecia que fora revestido por uma armadura de blindagem especial, quiçá celestial.

Toda a bicharada amante do Grande Rato estava pávida, era o dia da escolha. O Humano liderou e foi conduzido pela maior parte dos habitantes ao posto de líder. Muitas mudanças foram acontecendo desde a sua posse. Aquela Zona pouco a pouco se transformava num Paraíso. O Rio Central voltava a correr límpido por entre os vales. Os animais, em sua maior parte livre da alucinação e dependência festejavam as alterações. Todavia, os aliados do Grande Rato ainda insistiam e não reconheciam como legítimo aquele governo, assim, mais uma vez convocaram o Foro com o intuito de constituir um novo regime liderado pelo Grande Rato. Iniciaram a reunião, mas como há certo tempo não se viam, decidiram servir um aperitivo com o que sobrara dos alimentos outrora plantados pelo Rato, que ainda estava em cativeiro, tornaram a servir carne embutida com centeio e cevada. Fartaram-se tanto com a cevada e os alimentos que num dado momento já não sabiam o que os havia conduzindo à reunião, e numa vã alucinação despiram seus corpos embalados pelo ritmo das Cigarras Cantarolantes e envenenaram-se de entorpecentes, fezes e orgias.


Amanda Rocha é professora



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