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Uma vida em minha vida – por Gióia Jr.


ConTexto homenageia a todos os pais através deste poema de Gióia Jr., escrito para o seu pai, o pr. Raphael Gióia, e repleto de imagens poéticas e sentimentos.




Perdi-o.
Não o tenho.
Telefonarei para sua casa, e da distância, voz um tanto abafada, palavras de ternura de rosa (desta mesma rosa amarela que está sobre a mesa em que escrevo) ele não falará comigo.
Irei buscá-lo em meu pequenino carro barulhento, para as longas visitas habituais, e ele não irá comigo.
Não estará mais lendo em sua biblioteca (a imensa colméia de onde vinham seus sermões). Não virá mais orar à cabeceira de minha cama, quando eu estiver doente. Seu púlpito está vazio.
Tristemente vazio.
Onde os largos gestos firmes?
As mãos para traz e o corpo todo sentindo o sermão na ponta dos pés?
Onde o timbre da voz, doce e penetrante, metálico às vezes, outras vezes aveludado?
Nos aniversários, não lerá para nós o salmo predileto.
No Natal, enfeitará de saudade nossas possíveis alegrias.
O terno preto dos domingos, levou-o um pobre.
O chapéu inconfundível, real como uma vida, dorme sobre o cabide.
Não há mais sol ou chuva que desçam sobre sua cabeça pintada de neve.
“Eu irei para ele, porém ele não virá para mim.” Não o tenho. Perdi-o.
Há coisa mais triste?

II

Eu era pequenino, de calças curtas.
Igreja Paulistana há alguns decênios. Dona Ida, Dona Paula, Dona Noêmia, Seu João Donatz, Arnaldo de Matos, Furtado de Mendonça, Dona Dagmar, Dona Alcina, Diácono Iraci. Na escola domi
nical eu teria de dizer uma poesia. Uma das primeiras poesias que disse em minha vida.
Ela falava de um pai que ia ficando velho, cujos cabelos embranqueciam.
Falava do filho que não queria perder o pai.
Naquele tempo meu pai era moço e forte.
Olhos de brilho penetrante. Cabelos negros.
Não consegui declamar a poesia até o fim.
Chorei.
Seu Mendonça chorou, me carregou no colo. Papai chorou. A Igreja chorou. Isto foi há muitos, muitos anos.
Que gostosa aquela tristeza!
Eu era menino, papai era moço – Havia uma longa vida pela frente.



III

Levou-me pela primeira vez ao Colégio. Eu e Paulo. Ao Colégio Batista da mesma Rua Homem de Melo, nas Perdizes.
O Diretor era Mister Morgan.
As professoras eram Dona Ludmilla, Dona Leleza.
Dona Leleza que tocava piano enquanto a gente do Jardim da Infância dormia.
Paulo não quis ficar. Fugiu. Fui atrás dele.
Meu pai ria, ria, ria.
No Jardim, eu repetia para os coleguinhas toda aquela belicosidade de meu pai.
Um dia agarrei um santinho do peito de um menino, joguei-o ao chão e provoquei:
- “Não é santo. Piso nele e ele não faz nada!”
- “Quieto menino, respeite a religião dos outros.”

IV

Foi meu Professor de Português.
Preparou-me para o admissão.
Graças ao seu grosso lápis vermelho e azul, tirei as melhores notas e aprendi a conjugar os verbos, especialmente no imperativo negativo e positivo.
Fomos para Campo Grande.
Ele foi meu professor nos 4 anos de Ginásio.
Dava notas mais rigorosas para mim.
Eu caprichava nas composições, mas os colegas tinham notas mais altas que as minhas.

Um dia fiz a composição de outro colega.
Tirei nota inferior.
Ele soube depois e riu muito.
- Tenho que puxar pelo meu filho.
Quero que ele saiba mais que os outros.

V 
Leu meus primeiros poemas:
- Não está bom não, filho, está um tanto forçado.
Poesia é algo muito natural. Assim como a respiração, entende?
Nada o satisfazia.
Queria que o filho escrevesse melhor.
Um dia escrevi um poema para mamãe, que estava doente e longe da gente.
Levei ao escritório para que o lesse.
Leu-o e não disse palavra.
Tirou os óculos, enxugou uma lágrima.
Depois me abraçou e chorou. Chorou muito. Chorava e ria como o faria muitas vezes vida à fora – Foi o maior elogio que fez a um poema de seu filho!
Prefaciou gulosamente, de olhos arregalados como uma criança que come um doce, os dois primeiros livros que escrevi.
Era o primeiro a ler qualquer poema que eu escrevesse.
O meu crítico, o meu orientador, o meu amigo.

VI

Aos dez anos me batizou, ali no batistério da Primeira Igreja Batista.
Era uma noite fria.
Salústio Areias também foi batizado no mesmo dia.
Eu tinha tido sarampo.
Disseram que era perigoso uma recaída.
Ele não acreditou nisso.
Fez questão que o batismo fosse naquele dia.
- “Meu filho (para os outros dizia, meu irmão)
renovas a tua profissão de fé, consciente e livre feita perante a Igreja e perante Deus”
- “Renovo!” - respondi, rouco e tímido.
Eu estava amedrontado.
Levantou a mão direita. Colocou a esquerda sobre o meu ombro. Baixou a cabeça e exclamou em alta voz:
- “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”
E, me olhando por cima dos óculos, falou baixinho aos meus ouvidos:
“não tenha medo”.
E por suas mãos firmes e enérgicas belas e claras, fui mergulhado nas águas batismais.

VII

Fez o meu casamento na Igreja do Brás.
Chamou Dinorah num canto e disse brincando:
- Se algum dia ele judiar de você, venha à minha Casa e se queixe. Puxo as orelhas dele.
Minha nora é minha filha.
- Numa fria e cinzenta manhã de junho, ficou torcendo comigo para que o meu primeiro filho fosse um homem:
- “Vai ter o meu nome, será o neto!
Quando crescer vai herdar de você o grande relógio velho do meu escritório, que foi de meu avô e de meu pai.”
Aquele mesmo relógio para o qual escrevi uma elegia.
- É menino!
Chorou comigo. Chorou e riu como tantas vezes o faria vida a fora.
Fomos juntos, como dois colegiais, registrar o meu primeiro filho.
Depois veio Rosely e a alegria foi a mesma:
agora era a netinha.
Chorou comigo. Riu comigo.
Fomos juntos, conversando como dois companheiros, registrar no Cartório do Brás a menina que trazia tanta alegria ao nosso lar.

No Hospital das Clínicas, a maior preocupação do Erasmo era a saúde de meu pai.
- Não quero que ele venha aqui. Não quero que ele se impressione.
Como está papai?
- Papai está bem!
Paulo não chegava de viagem sem que viesse tomar a bênção de seu velho pai:
- Ando meio preocupado, papai está um tanto abatido...
Erasmo foi chamado à Glória de Deus.
Paulo foi fazer companhia a Erasmo.
Vovó foi também cantar louvores no céu!

Papai está bem!
Como está bem? Tem chorado muito!
Chorado sem que ninguém o veja.
Escondidinho no escritório.
De noite, quando os outros dormem.
Saudades que seu coração quase não suporta.
Muitas vezes esteve à beira da morte, e as orações dos crentes de todo o Brasil o fizeram sarar.

- Quando Deus tiver de me levar, a Igreja nem saberá que estou doente, para que não tenha tempo de lutar com Deus, pedindo a minha cura.

VIII

Quantas visitas fez?
Quantos sermões pregou?
Em quantos Estados semeou?
Quantas almas levou para o aprisco do Mestre?
A quantos confortou, esclareceu, encaminhou, dirigiu, ensinou, orientou, guiou, salvou?
Não sei. De uma coisa sei, “que eu era cego e agora vejo”!
Foi o Billy Graham caboclo, o Moody de Piracicaba.
Sem recursos, sem equipes, sem meios, sacudiu a Pátria com a sua palavra simples, direta, humana, enérgica, convincente, comovente, plena do poder do Espírito Santo.

IX

Perdi-o.
Não o tenho.
Desejarei falar com ele,
como quem morre de sede, e ele não ouvirá a minha súplica.
Trocarei bens e glória e prazeres e planos por uma migalha de seu sorriso, por uma gota do brilho dos seus olhos.
Não sorrirá. Não me verá.
Dele resta o grande vazio que ninguém preenche.
Um nó em minha garganta, as mãos trêmulas, os olhos vermelhos.
Enquanto morria, seus colegas pastores estavam à sua cabeceira.
Ele respirava compassadamente.
Não via, não falava, não se movia.
Apenas respirava.
O seu sopro parecia o bater nervoso das asas de um pássaro ferido.
Eu, Guta, Elza Helena, Maria Helena, Lídia Helena e mamãe chorávamos um choro manso, sem gritos, sem revolta, sem blasfêmia.
A respiração foi se ralentando. Foi murchando lenta e suavemente. Parou.
Pastor Erodice recitou e todos nós repetimos:
- “O Senhor nos deu, o Senhor nos tomou.
Bendito seja o nome do Senhor!”

X

D. Gláucia Petcov olhou para mim e repetiu baixinho um trecho do meu poema VEM DOCE MORTE:
“... és um sussurro manso...”
pela certeza de que “os que crêem NELE ainda que estejam mortos, viverão.”
Felizes, porque “Uma mui feliz cidade existe além das brumas e da cerração.”
A Jerusalém excelsa onde não há mais pranto nem dor.
A Cidade Santa.
Quando deixávamos o Araçá, Dinorah sentiu as primeiras dores.
Menos de duas horas depois, Deus, no seu infinito amor, mandava o meu terceiro filho – o Rubinho.
O netinho que o vovô não conheceu.
O netinho que alegrou o coração da vovó e do papai e da mamãe e dos tios, no dia em que nosso tesouro ficava no Araçá.
XI

Registrei meu filho no Cartório do Brás.
Guta foi comigo.
Papai não assinou como testemunha.
Papai não está mais com a gente.
Perdi-o.
Não o tenho mais!
Não o terei mais! Nunca mais!
Nos aniversários, não lerá para nós o salmo predileto.
No Natal, enfeitará de saudade nossas possíveis alegrias.
O terno preto dos domingos, levou-o um pobre.
O chapéu desabado, cinzento, fosco, murchou como estranha flor.
Os cãezinhos não farão mais festas a seus pés.
Os canários, aos quais levava alpiste todas as manhãs, não cantarão mais para seus olhos de menino feliz. Não dará mais o braço à minha mãe, na caminhada terna e carinhosa dos domingos.
Os vizinhos não dirão mais:
“Vão eles de braços dados. Parecem adolescentes.
Dois namorados, isso é o que parecem.”
(Minha mãe, minha linda mãe, filha de um corajoso espanhol de Málaga, é uma rocha em frente ao mar.
Batida pelas ondas e pelos cortantes ventos da costa.
Em três anos perdeu a mãe, o marido e dois filhos.
Mas é quem nos consola, quem nos conforta, quem nos encoraja.)
Não morreu, no entanto.
Está no trabalho que fez, nos livros que escreveu, nos sermões que pregou, nas almas que levou a Cristo, na Igreja que dirigiu.
E em mim.
No que penso, no que falo, no que escrevo, no que vivo.
Meu exemplo, meu estímulo, meus poemas, minha saudade. Minha enorme saudade.
Minha vida.
Uma vida em minha vida!

Do livro ‘25 Anos de Gióia Júnior‘ (Editora Betânia).

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