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120 anos de Primeira Igreja: José dos Santos, o mártir


As notícias do martírio de José dos Santos, ocorrido em 3 de novembro de 1901, foram relatadas em uma carta de Telford do dia 8 daquele mês . Telford havia chegado em Caruaru para nova visita na sexta-feira, dia 1. O sábado, dia 2, lhe causou perplexidade, porquanto era Dia de Finados e ele pode ver cemitérios “lotados de gente orando pelas almas de entes queridos”. Para não insinuar nenhum tipo de provocação, o missionário nem se aproximou daquilo que chamou de “cenas extraordinárias”. Preferiu fazer uma “caminhada até o morro que fica defronte à cidade” (o morro Bom Jesus?).



No domingo, dia 3 de novembro, por volta das sete horas, Telford foi visitar o irmão José, acompanhado de dois homens. Juntos, tomaram café, conversaram sobre a “maneira de trabalhar [na obra missionária]” e realizaram um culto doméstico. No culto, a porção lida incluiu as bem-aventuranças: “Bem-aventurados os que choram... Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça...”. “Como é que nós íamos saber que, em menos que três horas, o chefe daquela casa passaria pelas portas eternas para Aquele Reino?”, ponderou Telford após o episódio fatídico.

Após a visita, pelas nove horas, o missionário retornou “à cidade imediatamente”, onde aguardaria os irmãos do Cedro para o culto, inclusive o irmão José e sua esposa. Às onze horas, porém, tais irmãos ainda não haviam chegado, até que uma mulher entrou na sala cambaleando: “Mataram meu esposo! Mataram José!”. Outra jovem chegou ofegante e, no entanto, mais lúcida, pode dizer o que presenciou: “No caminho para o culto, num pequeno vale, alguns homens armados atacaram o grupo. O jovem conseguiu escapar, como também a mulher”, mas José escolheu o pior caminho de fuga, o mato, “e ali mesmo caiu, seu coração furado pela faca do assassino”.

Os assassinos fugiram. O corpo foi levado, em uma rede, ao presídio por um oficial e dois soldados para ser examinado. Telford acompanhou tudo. Um caixão foi alugado para o enterro que aconteceria no mesmo dia. Só havia cinco pessoas para o cortejo fúnebre, além de dois soldados e alguns homens que, ao longo do percurso, se sensibilizaram e ajudaram a carregar o caixão por longa distância. A liturgia fúnebre consistiu da leitura de parte de 1Coríntios 15, comentários do texto e oração.

Telford visitou a viúva no dia seguinte e pode constatar com alegria “que sua fé em Deus tem sido fortalecida”.

Os olhos da imprensa pernambucana se voltaram a Caruaru. Três dos verdadeiros assassinos foram presos, mas refletiu Telford que “alguém enviou estes homens... e, a não ser que o verdadeiro autor do crime seja julgado pouco adiantará”. O autor intelectual do homicídio de José dos Santos jamais foi punido por seu crime.

É patente, pois, a “dívida histórica” do Município com os protestantes em geral e, particularmente, com a primeira igreja evangélica da cidade. Entretanto, quais as “ações afirmativas”? Onde, os monumentos? Quando, as homenagens? Até nossos pleitos risíveis à Prefeitura, quanto à colocação de faixa de pedestres e liberação da margem direita da calçada para estacionamento dos nossos carros aos domingos, defronte ao templo, têm sido ignorados.

Por outro lado, não olvidamos o dito de um antigo defensor da fé, segundo o qual “o sangue dos mártires é a semente da igreja”!




Ary Queiroz Jr. é pastor da 1ª IEC de Caruaru. O texto é adaptado do livro "Caruaru Cem Anos de Luz", do Rev.Marcos Quaresma e da Profa. Dra. Joyce Clayton

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