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Os tempos de hoje, como nos tempos de Roma - por Padre Paulo Ricardo

Olhar para alguns capítulos mais distantes da história pode ser ocasião para grandes aprendizados: a lição dos heróis e dos gigantes de outros tempos pode indicar-nos a direção a trilhar enquanto, por outro lado, as imprevisões e erros antigos aconselham ao homem moderno qual caminho não tomar.

A história da Roma Antiga tem suas páginas memoráveis – e isto comprovam tanto os belos monumentos artísticos produzidos na época quanto as importantes obras arquitetônicas que uniam um extremo ao outro do Império. O próprio ambiente de pax romana que surgiu ao alvorecer do primeiro milênio foi o que possibilitou aos habitantes da Cidade Eterna granjear relativa estabilidade e tranquilidade, além de presenciar a expansão da religião cristã, cuja semente só caiu em terreno fértil porque aquela era, no dizer de São Paulo, "a plenitude dos tempos" (Gl 4, 4).



Ao mesmo tempo, porém, à narrativa de alguns costumes decadentes no Império Romano é impossível não relacionar a fragilidade moral dos tempos atuais. Enquanto Jesus nascia, em Belém, na Palestina, o ambiente que o circundava era repleto das mais terríveis maldades, práticas que, infelizmente, o homem contemporâneo tem descido para recuperar, precipitando a civilização em uma nova – e mais devastadora – ruína.

E as semelhanças não são poucas, a começar pela excessiva intervenção do Estado na vida dos indivíduos. O historiador francês Daniel-Rops avalia: "Em todos os tempos e países, a substituição das tendências naturais do homem pela vontade do Estado é sempre um indício de decadência. Um povo está muito doente quando, para viver honestamente e ter filhos, necessita de prêmios ou de regulamentos" [1].

Em Roma, "uma massa popular mais ou menos ociosa, formada por camponeses desenraizados, trabalhadores autônomos agora privados de trabalho, escravos libertos e estrangeiros cosmopolitas" formou um terreno fértil para o parasitismo estatal:

"O antigo romano, tão sólido no seu trabalho, torna-se o 'cliente', o parasita, a quem a 'espórtula' remunera uma fidelidade suspeita. Os imperadores têm de contar com esta plebe lamentável e por isso a rodeiam de atenções. Mas um povo não se habitua à mendicidade e à preguiça sem que a sua alma seja atingida. Em breve a covardia e a crueldade andarão de mãos dadas com o vício, e o vício, como diz a sabedoria popular, é a mãe de todos os males. Já não há quem queira combater nas fronteiras, como não há quem queira trabalhar a terra. E assim aquela imensa multidão, para se distrair, irá procurar nos jogos do circo os prazeres que acabam por degradar a sensibilidade humana." [2]

Muitos dos nossos contemporâneos têm substituído a livre iniciativa, os seus próprios sonhos e projetos, para viver à custa do Estado, granjeando benefícios sem passar pelo fardo duro do trabalho; têm preferido a medíocre política panem et circenses a uma vida de batalha diária na família, no trabalho ou nos estudos - uma vida de sacrifícios, sim, mas de muito maior e mais nobre valor moral.

Ao lado desta dependência lamentável do Estado, é crescente o drama de uma sociedade estéril. Vários países europeus, para conter o "inverno demográfico", veem-se obrigados a dar incentivos à sua população para que ela queira ter filhos. O antinatalismo hoje reinante na Europa é, pouco a pouco, exportado para os países subdesenvolvidos, fazendo com que as famílias diminuam o número de seus filhos aos limites de seu egoísmo. Há até um lobby a nível mundial comprometido com a redução em massa da população do planeta.

Este lobby, pesadamente financiado por grandes organizações internacionais, não se contenta em distribuir à população os instrumentos para a contracepção artificial, transformando o sexo em um "parque das diversões", como também procura implantar, em todo o mundo, o chamado "aborto livre e seguro". Como causa e consequência disto está o grande número de mulheres que procuram clínicas para assassinar seus próprios filhos.

Qualquer semelhança com o decadente Império Romano não é mera coincidência. "Uma inscrição do tempo de Trajano dá-nos a conhecer que, de cento e oitenta e um recém-nascidos, cento e setenta e nove são legítimos, e destes, apenas trinta e cinco são meninas, o que prova suficientemente a facilidade com que as pessoas se desembaraçavam das meninas e dos filhos naturais" [3].

Ao fundo de tudo isto, estava a cegueira de um povo que, ludibriado pelas benesses estatais, divinizava seu imperador. "O culto imperial não cessará de crescer ao longo dos dois primeiros séculos. Todos os sucessivos senhores do Império o estimularão (...) por verem nele, em última análise, uma forma de lealismo e a expressão visível da dedicação dos súditos ao seu senhor" [4].

Se é verdade que o culto a personalidades políticas é bem evidente em países que sofreram com a dominação socialista, todavia o que mais se assemelha à pretensão romana de uma religião universal é, sem dúvida, o projeto globalista new age. Em uma das conferências do Milênio promovidas pela ONU, em 2000, organizou-se uma coalizão chamada United Religions Initiative ["Iniciativa das Religiões Unidas"], cujo propósito é nada menos que "superar as religiões dogmáticas" [5], rumo à ereção de uma nova religião universal.

É claro que esta pretensão internacionalista não pode conviver pacificamente com a religião cristã, essencialmente dogmática, assim como a comunidade dos primeiros seguidores de nosso Senhor representava um verdadeiro insulto ao culto ao Imperador. Novamente, o poder maligno da Besta, narrado no Apocalipse de São João, manifesta-se em toda a sua impiedade e malvadeza. Nunca se viu tanto esforço para emular a decadência de um Império.

Referências
DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. Quadrante: São Paulo, 1988, p. 129.
Ibid., p. 128.
Idem.
Ibid., p. 122.
SANAHUJA, Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal. Campinas: Katechesis/Ecclesiae, p. 72.


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