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A cosmovisão bíblica das artes – por Gregor Wilbur

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” (Filipenses 4:8)

A exortação de Paulo aos Filipenses provê um modelo para cultivar um coração centrado nos afetos do Evangelho e, por conseguinte, na vida do Evangelho. Com demasiada frequência os cristãos se embebem de cultura secular, andando pelo caminho do mundo, porque suas sensibilidades não têm sido desenvolvidas da maneira correta – literalmente, não “pensam” naquelas coisas que são verdadeiras e amáveis e são incapazes de fazer um juízo moral acerca das coisas do mundo.



Existe uma linha de demarcação, tal como foi articulada por Agostinho, entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Ou algo é sagrado ou é secular; difundido com o aroma da vida ou com o olor da putrefação. Com demasiada frequência, os cristãos modernos querem as coisas das duas maneiras – serem “espirituais” porém consentindo com os desejos da carne. Com demasiada frequência, pensamos de maneira legalista sobre quanto podemos nos aproximar da linha do pecado sem transpassá-la. (...) A maneira como investimos nosso tempo, nosso  dinheiro, nossa atenção e nossos afetos é um indicativo muito melhor de qual é a nossa cosmovisão do que o que falamos que é. É um elemento distintivo do mundo pós-cristão sustentar perspectivas simultaneamente contraditórias e não implodir.

Assim sendo, Filipenses 4:8 provê um corretivo parcial através do qual podemos avaliar nossas atividades e afetos. São verdadeiros? São honrados? São justos? São puros? São amáveis? São de boa fama? Se não são, como justificamos o tempo que Deus nos dá e não buscamos a Ele?

Talvez você se pergunte se essa é a proposta de uma subcultura cristã. De maneira nenhuma! Somos chamados ao mundo para transformá-lo. Sem embargo, nossos esforços têm mostrado mais como estamos adaptados ao mundo ao invés de transformá-lo. Toda verdade é verdade de Deus; toda a beleza também é de Deus. É com sabedoria e discernimento que devemos navegar pelo pântano da cultura para glória de Deus e propagação do Evangelho.

Existe uma falsa dicotomia que separa a suposta “tradição” das igualmente supostas expressões artísticas “contemporâneas”. Cada uma cronologicamente arrogante. Os conservadores e os modernistas compartilham a mesma visão de ignorar a história com o propósito de exaltar um momento particular no tempo em detrimento dos demais – um ao tratar do passado e outro ao tratar de substitui-lo e ignorá-lo.

A alternativa bíblica é desejar aprender as lições do passado, viver no presente e planejar para o futuro. Claro que este é um enfoque muito mais difícil pois requer sabedoria e discernimento para poder fazer aplicações ou mesmo que uma grande quantidade de tempo e esforço. Também é uma síntese das ideias de ambas as escolas, posto que inclui o mandato bíblico de criar enquanto se respeita o passado.

Concentrar-se em uma era específica da história excluindo todas as demais é um
entendimento míope da Igreja como Noiva de Cristo através de todos os tempos. É igualmente estreito cantar música de Bach todo o tempo ou cantar unicamente o que foi escrito nos últimos 20 anos. H. R. Rookmaaker, em sua obra A Arte Moderna e a Morte de Uma Cultura, fala sobre a ideia de como cada geração traz a verdade do Evangelho para que se ajuste a seus próprios tempos. Esta é a essência de ser contemporâneo. Infelizmente, a ideia de ser contemporâneo é confundida com o enfoque modernista para substituir o passado. Um verdadeiro contemporâneo entende o passado e busca incorporar seu entendimento e êxitos aos esforços atuais com um desejo de ser igualmente permanente e excelente.

Permitir que o passado explique e influencie a direção é parte da grande nuvem de testemunhas daqueles que se foram antes de nós na fé. É perigoso ignorar o passado; criar sem considerar o passado é negar o evangelho através do tempo. Não devemos abraçar de maneira promíscua todo o passado, porém nossa teologia, arte e cultura são anêmicas, artificialmente formais e míopes sem ele.

Não devemos buscar como escrever música como Bach e a era barroca em que ele viveu; porém devemos entender sua atenção aos detalhes, sua busca pela excelência, sua peculiar habilidade, a influência da teologia em sua composição e seu profundo desejo de glorificar a Deus e aplicar isso à música em nosso próprio tempo. Não devemos buscar como construir catedrais góticas, porém devemos entender a teologia da arquitetura e sua habilidade para falar da transcendência de Deus e da necessidade do homem, a idade de permanência e as empresas multigeracionais, o sacrifício da comunidade, a atenção ao trabalho no menor detalhe, e o desejo de glorificar a Deus oferecendo o nosso melhor e aplicar isso à arquitetura da igreja de nosso próprio tempo. A melhor arte transcende o tempo no que foi escrito ou executado – o que é outra distinção entre o que é moderno ou contemporâneo.

A existência de um padrão bíblico da beleza e da excelência, tal como se aplica às artes, não significa necessariamente que seja sempre fácil aplicá-lo. Não é tão-somente o equilíbrio entre o velho e o novo. É a utilização do passado por causa do presente e do futuro.

O mandato cultural nos chama a dominar sobre a terra e subjugá-la. Isto inclui o som, a cor, o movimento, a linguagem, o tempo. A criação da música, as pinturas e a arquitetura manifesta este domínio.

A verdade deve ser declarada de uma maneira que seja digna do conteúdo. De modo que frequentemente a mensagem do evangelho é minada, minimizada ou empurrada para questões periféricas devido aos veículos indignos pelos quais é representada. Uma cosmovisão bíblica das artes abarca a glória e o alcance plenos da expressão artística tal como se manifestam nas obras mestras teologicamente sábias de séculos passados porém de uma maneira apropriada ao tempo e ao lugar em que vivemos; inclui um nível de permanência apropriado ao seu tema; provê aquilo que é digno para a contemplação – o amável, verdadeiro, honrável, puro e de boa fama.


George Wilbur é diretor do King Meadow Study Center e músico da PArish Pres em Franklin, Tenesse, onde vive com sua esposa Sophia e sua filha Eleanor. Tradução livre feita pela equipe de ConTexto.



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